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Boa Vista,28/05/2026

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UNICEF alerta que dignidade menstrual vai além da distribuição de absorventes

No Dia Internacional da Dignidade Menstrual, UNICEF defende acesso à água, saneamento, higiene, informação e escolas seguras para meninas e adolescentes


UNICEF alerta que dignidade menstrual vai além da distribuição de absorventes Banheiro-modelo apoiado pelo UNICEF foi desenvolvido com foco em privacidade, segurança e conforto para adolescentes em contexto escolar. Crédito UNICEF/BRZ/Paulo Diógenes

Garantir dignidade menstrual não se resume à entrega de absorventes. O alerta é do Fundo das Nações Unidas para a Infância, que chama atenção para a necessidade de tratar o tema como uma questão de direitos, saúde, permanência escolar e equidade de gênero.

No Dia Internacional da Dignidade Menstrual, celebrado em 28 de maio, o UNICEF reforçou que o enfrentamento da pobreza menstrual exige acesso à água, saneamento, higiene, informação de qualidade e ambientes escolares seguros, além da distribuição de itens de cuidado menstrual.

O organismo internacional destaca que, embora a menstruação seja um processo biológico natural, milhares de pessoas que menstruam no Brasil ainda enfrentam dificuldades para vivê-la com segurança, privacidade e sem constrangimento. O impacto recai de forma mais severa sobre meninas e adolescentes, cuja frequência escolar, autoestima, saúde e desenvolvimento podem ser prejudicados pela falta de banheiros adequados, água, privacidade e acolhimento nas escolas e em casa.

Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, a PeNSE 2024, divulgados neste ano pelo Ministério da Saúde, mostram a dimensão do problema. Segundo o levantamento, 15,3% das adolescentes entre 13 e 17 anos deixaram de ir à escola ao menos um dia nos últimos 12 meses por falta de absorventes ou outros itens necessários para os cuidados menstruais. Nas escolas públicas, esse percentual sobe para 16,9%. No Amazonas, o cenário é ainda mais grave: 27,9% das adolescentes faltaram às aulas pelo mesmo motivo, o equivalente a quase três em cada dez estudantes.

O UNICEF chama atenção para um dado adicional que expõe a complexidade do problema. Entre as adolescentes que faltaram à escola por falta de absorvente, mais de 80% estudavam em unidades que informavam oferecer esse tipo de produto. Para a entidade, isso mostra que a distribuição, sozinha, não resolve a exclusão menstrual se não vier acompanhada de infraestrutura adequada, acesso real e informação de qualidade.

“Garantir dignidade menstrual significa garantir condições para que meninas e adolescentes possam permanecer na escola com segurança, privacidade e acolhimento. Isso envolve garantir o acesso a água, saneamento e higiene, incluindo banheiros adequados, informação de qualidade e ambientes livres de estigma”, afirmou Gabriela Mora, especialista em Participação e Desenvolvimento de Adolescentes do UNICEF no Brasil.

O problema, segundo o organismo, é estrutural. O relatório conjunto do UNICEF e do Fundo de População das Nações Unidas, divulgado em 2021, já havia mostrado que 713 mil meninas vivem sem acesso a banheiro ou chuveiro em casa e que mais de 4 milhões não têm acesso a itens mínimos de cuidados menstruais nas escolas. O quadro se agrava em áreas rurais, indígenas, quilombolas e ribeirinhas, onde a ausência de infraestrutura básica tende a atingir de forma desproporcional meninas e adolescentes que menstruam.

O Censo Escolar 2025 também reforça esse diagnóstico. Mais de 4.600 escolas brasileiras ainda não possuem banheiro, situação que afeta mais de 416 mil estudantes, sobretudo nas regiões Norte e Nordeste. Para o UNICEF, sem água, saneamento e higiene não há como falar em dignidade menstrual. A entidade argumenta que a desigualdade no acesso à infraestrutura básica também revela uma desigualdade de gênero, já que seus efeitos atingem diretamente a vida escolar e o bem-estar de meninas e adolescentes.

Além da falta de estrutura, o UNICEF destaca que a menstruação ainda é cercada por tabus e desinformação. O silêncio em torno do tema faz com que muitas adolescentes sintam vergonha do próprio corpo, deixem de procurar ajuda e se afastem de atividades escolares, esportivas e de lazer. Para a organização, enfrentar o estigma é parte indispensável da construção de ambientes mais acolhedores e respeitosos.

“A menstruação não pode continuar sendo um tema cercado por constrangimento. Falar sobre dignidade menstrual também é promover informação, acolhimento, proteção e participação de adolescentes na construção de soluções. É muito comum que adolescentes deixem de participar de atividades de esporte, lazer e percam oportunidades de aprender por algo tão natural que jamais deveria ser uma barreira para o seu desenvolvimento”, afirmou Gabriela Mora.

Nos últimos anos, o UNICEF tem apoiado ações em diferentes regiões do país para enfrentar a pobreza menstrual e ampliar o debate sobre o tema. Na zona rural de Manaus, por exemplo, estudantes participaram de um hackathon voltado à criação de soluções de saneamento escolar relacionadas à dignidade menstrual. A iniciativa resultou na construção de um banheiro-modelo elaborado a partir da escuta de adolescentes, com foco em privacidade, segurança e conforto adaptados à realidade local.

Em 2025, a organização realizou atividades sobre dignidade menstrual em escolas da Amazônia e do semiárido brasileiro. Segundo o balanço divulgado, 1.216 adolescentes participaram de sessões sobre o tema em comunidades ribeirinhas da Amazônia; 2.435 estudantes estiveram em ações de água, saneamento e higiene em Manaus; 1.410 crianças e adolescentes participaram de atividades educativas em escolas rurais, indígenas e quilombolas no Ceará; e cerca de 10 mil adolescentes foram alcançados por iniciativas de promoção da dignidade menstrual e igualdade de gênero no Maranhão.

O UNICEF também afirma atuar no fortalecimento de políticas públicas voltadas à dignidade menstrual, apoiando estados e municípios na construção de escolas mais inclusivas, seguras e preparadas para acolher adolescentes sem discriminação. Apesar de reconhecer avanços recentes nas políticas públicas, a entidade defende que ainda é preciso ampliar o debate público, romper tabus e garantir a participação de adolescentes na formulação das soluções.

Para o organismo, a dignidade menstrual precisa deixar de ser tratada como um tema secundário ou restrito ao fornecimento de insumos. A menstruação, afirma a entidade, deve ser reconhecida como uma questão de direitos, dignidade e desenvolvimento. “Por muito tempo, a menstruação foi tratada como um assunto que não podia ser nomeado. Não falar sobre menstruação também é uma forma de falar. O avanço começa quando o tema deixa de ser tabu e passa a ser tratado como uma questão de direitos, dignidade e desenvolvimento”, concluiu Gabriela Mora.




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