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Boa Vista,28/05/2026

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Sebastião do Nascimento

Diálogo de Deus e o Diabo sobre um país estranho

Em diálogo alegórico, artigo constrói uma crítica dura ao Brasil a partir de suas desigualdades, hipocrisias e distorções estruturais.

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Diálogo de Deus e o Diabo sobre um país estranho Imagem alegórica retrata Deus e o Diabo diante de um Brasil marcado por desigualdades, injustiças e contradições sociais, tema central do artigo de Sebastião Pereira do Nascimento.
Certa vez, Deus e o Diabo se encontraram e passaram a conversar sobre os diferentes países do mundo. Em meio ao diálogo, o Diabo fez elogios a uma determinada nação. Surpreso e desconfiado, imaginando tratar-se de um lugar distante dos bons princípios — onde moral, liberdade, igualdade e justiça deveriam orientar a vida humana —, Deus começou a interrogá-lo sobre aquele país estranho.

— Camarada, então existe um país onde tudo funciona à própria sorte?

— Sim, existe! — respondeu o Cramunhão. — Existe um país que nasceu cercado de riquezas, com tudo para crescer em berço de ouro e se tornar a porta do paraíso, mas cuja população “adora” viver na mais absurda carência, transformando-o em portal do inferno.

— Mas existe mesmo um país assim? — insistiu Deus.

— Sim, existe! Existe um país onde, ao serem privadas do direito à escola, crianças “felizes” são obrigadas a nascer sabendo, e muitas delas acabam mortas apenas por estarem na escola... um lugar muito diferente dos palácios que acolhem políticos vorazes e das mansões que protegem barões famintos.

— Você está brincando, coisa ruim... existe mesmo esse país?

— Sim, existe! Existe um país que, somente por uma intervenção — e nem vou dizer de quem —, pode sair da lista da mortalidade infantil provocada pelos descendentes de Herodes: políticos que matam crianças e adultos, lavando as mãos como Pilatos e entregando o povo aos descendentes de Barrabás para o sacrifício final.

— Você só pode estar zombando de mim. Existe mesmo esse país no mundo?

— Sim, existe! Existe um país que, com o suor do próprio rosto, realiza o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes, tal como teu filho fez, mas cuja maioria do povo “prefere” passar fome. Um país que se orgulha de ser grande produtor de alimentos, mas convive com insegurança alimentar e fome, fruto de uma injustiça social profunda.

— Não posso acreditar que exista um país assim. Tinhoso, você não está sendo sincero, está?

— Sim, estou! Existe um país que transforma a educação e a saúde pública em mazelas para justificar a privatização de ambas. Um país que destrói o próprio patrimônio estatal para abrir caminho à privatização, favorecendo grandes corporações privadas em prejuízo da nação.

— Não é possível que, em pleno século XXI, exista um país tão negligente com sua população — lamentou Deus.

— Sim, existe! Existe um país que faz o milagre de multiplicar o vinho, mas cuja maioria da população bebe água poluída, contaminada pelos dejetos das fábricas, mineradoras e do agronegócio. Esses resíduos envenenam os mananciais, matam ecossistemas, atingem a população e produzem graves problemas de saúde.

— Entre a mentira e a verdade, prefiro acreditar que você esteja mentindo — afinal, você não é confiável —, porque me recuso a crer que exista um país assim.

— Sim, estou retratando fielmente um país que, pela prática do jeitinho, burla regras, rompe normas e, por qualquer dinheiro, abre exceções e privilégios para alguns, deixando a imoralidade em promoção permanente e transformando desvios éticos em hábito.

— Vem cá, Diabo, você está me dizendo que existe um país tão grotesco assim?

— Sim, e muito mais do que isso. Existe um país traído por aqueles que o próprio povo elegeu. Depois da vitória, cada um deles, antes mesmo que o galo cante duas vezes, nega o eleitorado três vezes, insistindo que foi eleito pela vontade soberana da nação, quando, na verdade, comprou cada voto por míseros tostões.

— Você só pode estar tirando sarro da minha cara. Será que existe no mundo um país tão esdrúxulo como esse?

— Sim, existe! Existe um país onde o cidadão, por dizer a verdade, é condenado pela mentira e crucificado entre dois ladrões. Sendo ladrões pequenos, são punidos por não merecerem o benefício da impunidade. Se fossem grandes ladrões, receberiam o perdão antes mesmo da injustiça dos tribunais.

— Não sei se isso pode ser verdade...

— Sim, estou dizendo a verdade. Existe uma nação onde homens que se dizem teus servos e defensores da família — mas seguem a homilia do Papa Gregório I — utilizam a narrativa inventada sobre Maria Madalena para depreciar todas as mulheres. Por isso as maltratam e, muitas vezes, as matam simplesmente por serem mulheres, sob o pretexto de defender falsos valores morais.

— Pelos relatos que você faz, um país desse tipo não pode existir, porra!

— Você ainda não ouviu nada... existe uma grande nação plantada no mapa-múndi onde vive uma sociedade livre, mas cativa; solidária, mas egoísta; laica, mas opressora; justa, mas desonesta; feliz, mas descontente... um país que encarna o conceito de nação ideal, mas é governado por um projeto político, social e econômico que reserva bônus a uma pequena casta e ônus à maioria da população... um país onde a liberdade é corrompida por práticas ilícitas acima do limite da lei. E, embora pareça ser o país do futuro, é uma nação que constrói o presente, ao longo de mais de 500 anos, enraizada numa patética realidade distópica.

— Coisa maligna, você está quase me convencendo de que existe mesmo um país desse jeito...

— Vou te dizer mais... existe um país que se diz democrático, mas elege representantes públicos que desprezam a democracia, exaltam a ditadura, violam a liberdade e ignoram o direito das minorias sociais. Um país formado por imensa diversidade, mas que privilegia uma elite ignorante, violenta e corrupta. Um país cujo corpo legislativo abriga representantes que fatiam as emendas parlamentares em benefício próprio antes mesmo que o dinheiro chegue à população.

— Olha, vou acreditar nisso porque me parece que, desta vez, você está sendo franco comigo. Mas me diga só mais uma coisa: esse país existe de fato?

— Sim, existe! Existe um país onde os pobres se debatem, sangram e gemem na cruz, mas continuam dando lucros aos homens de rapina. Esses homens, como grandes ladrões, sabem que, com a extinção da miséria, cessariam seus lucros; por isso, chegam a roubar até o direito de o pobre morrer, ainda que lhe reste apenas uma morte indigna. E, não satisfeitos, vão à igreja, em grande sacrifício, apelar pelo teu nome para que intercedas, a fim de que a propina venha em abundância.

Visivelmente atordoado, Deus então se manifesta:

— Pois é, diante de todas essas evidências, confesso que estou quase convencido de que esse país realmente existe.

— Claro que existe! Existe um país cuja população tem capacidade para erradicar o racismo, a xenofobia, a misoginia e tantas outras formas de intolerância; não o faz porque é domada por reacionários, facínoras, opressores e ignorantes... os mesmos energúmenos que cavalgam sobre os pobres, os negros, os indígenas, os fracos e os diferentes...

Absolutamente convencido dessa realidade, Deus — ainda mais encabulado com tudo o que ouvira — arriscou uma última pergunta:

— É, Satanás, confesso que estou perplexo, surpreso e também convencido da existência desse lugar. Portanto, partindo do princípio de que esse país tem um nome, como ele se chama?

— BRASIL!

Sebastião Pereira do Nascimento é filósofo, escritor e consultor ambiental. É membro editorial da revista Biologia Geral e Experimental e autor dos livros Cem contos miúdos e À sombra do caimbé (no prelo).


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