Prêmio da Fundação Carlos Chagas destaca professores da Unifap e recebe inscrições até 8 de junho
Docentes da Universidade Federal do Amapá já foram reconhecidos por projetos inovadores na formação de professores, enquanto nova edição do prêmio segue com inscrições abertas para licenciaturas de todo o país
Prêmio Professor Rubens Murillo Marques reconhece experiências de inovação em cursos de licenciatura. A formação de professores voltou ao centro do debate educacional com a abertura das inscrições para a 16ª edição do Prêmio Professor Rubens Murillo Marques, promovido pela Fundação Carlos Chagas. Em meio ao desafio de qualificar a preparação docente em um país que forma mais de 200 mil professores por ano, segundo o Censo da Educação Superior, a premiação tem reconhecido experiências inovadoras desenvolvidas em cursos de licenciatura e já destacou, ao longo de sua trajetória, dois professores da Universidade Federal do Amapá. Os trabalhos premiados abordaram temas ligados à presença indígena na formação educacional e ao uso da memória como ferramenta de reflexão entre futuros professores de História.
A nova edição do prêmio está com inscrições abertas até 8 de junho e é voltada a docentes que atuam em cursos de licenciatura em todo o Brasil. A proposta é identificar, valorizar e divulgar experiências já implementadas no campo da formação inicial de professores para a educação básica. Serão escolhidas três iniciativas, cada uma contemplada com prêmio de R$ 30 mil, além de diploma e troféu. Os trabalhos vencedores também serão publicados pela série Textos FCC, espaço editorial da instituição voltado à divulgação de estudos e experiências ligadas à educação.
No Amapá, a trajetória da premiação já trouxe visibilidade a dois professores da Unifap. O caso mais recente foi o do professor Agerdânio Andrade de Souza, vencedor do 11º ano do prêmio com o projeto Herbário intercultural: material didático na formação do educador indígena na Amazônia. A experiência teve como foco aproximar os conteúdos ministrados em sala de aula da realidade vivida por povos indígenas como Waiãpi, Galibi-Marworno, Karipuna e Calinã, articulando conhecimento científico e saberes empíricos no âmbito da disciplina de Etnobotânica Indígena.
O projeto buscou reduzir a distância entre o conteúdo acadêmico e o universo cultural dos estudantes, o que permitiu construir uma prática pedagógica mais conectada à realidade dos povos atendidos. Segundo o relato da experiência, o trabalho contribuiu para o empoderamento da cultura indígena durante as aulas e reforçou o valor de uma formação docente comprometida com contextos locais, diversidade cultural e produção de conhecimento situada. Em tempos de discussão sobre currículos mais inclusivos e práticas pedagógicas menos padronizadas, o reconhecimento da iniciativa reforça a importância de experiências que dialoguem com a Amazônia a partir de seus próprios sujeitos.
Antes dele, outro professor da mesma universidade também havia sido premiado. Giovani José da Silva foi reconhecido na 6ª edição com o trabalho “Objetos biográficos de memória”: reconhecendo-se como agentes históricos a partir de aulas de prática de ensino de história. Na proposta, estudantes do curso de licenciatura em História participaram de seminários nos quais apresentaram e problematizaram objetos biográficos, utilizando esses elementos como ponto de partida para refletir sobre memória, identidade e pertencimento histórico.
A experiência permitiu que os acadêmicos elaborassem uma leitura crítica sobre o próprio lugar no mundo, ao mesmo tempo em que aprofundaram a compreensão sobre si mesmos e sobre os outros. Em vez de tratar o ensino de História apenas como transmissão de conteúdo, o projeto apostou em uma formação que aproximasse a experiência individual da construção histórica coletiva. O reconhecimento dado ao trabalho mostra como a inovação em licenciaturas não depende apenas de recursos tecnológicos ou metodologias de impacto visual, mas pode nascer também de práticas pedagógicas sensíveis, reflexivas e conectadas à dimensão humana da formação docente.
A pesquisadora Patrícia Albieri de Almeida, do Departamento de Pesquisas Educacionais da Fundação Carlos Chagas e integrante do Comitê Executivo do prêmio, afirmou que a divulgação dessas experiências tem potencial de irradiar novas práticas entre docentes formadores. “À medida que a gente divulga essas experiências, isso inspira outros professores a aprimorarem suas práticas, conhecendo profissionais formadores qualificados e que desenvolvem experiências formativas significativas para outros futuros professores”, comentou.
A observação de Patrícia ajuda a entender o alcance da premiação. Mais do que reconhecer individualmente um professor ou uma instituição, o prêmio funciona como mecanismo de circulação de referências pedagógicas. Ao tornar públicas experiências bem-sucedidas, a iniciativa estimula o intercâmbio entre cursos de licenciatura e fortalece uma rede de profissionais voltados à melhoria da formação inicial. Em um cenário em que a qualidade da educação básica está diretamente relacionada à preparação dos docentes, valorizar quem ensina a ensinar passa a ser uma estratégia com impacto estrutural.
A nova edição do Prêmio Professor Rubens Murillo Marques se insere justamente nesse esforço. Podem participar professores atuantes em cursos de licenciatura de todo o país, desde que apresentem experiências já implementadas. A inscrição é gratuita e deve ser feita pelo site da Fundação Carlos Chagas até o dia 8 de junho. Além do valor em dinheiro e do reconhecimento institucional, a publicação dos trabalhos premiados amplia a possibilidade de que essas experiências sejam conhecidas por outros docentes, pesquisadores e instituições.
Criado em 2011, o prêmio presta homenagem ao professor doutor Rubens Murillo Marques, um dos presidentes fundadores da Fundação Carlos Chagas e nome ligado ao desenvolvimento educacional brasileiro. Desde então, a iniciativa tem se consolidado como um dos principais instrumentos de valorização de experiências inovadoras em licenciaturas. Ao longo das edições, o foco permaneceu na formação de professores para a educação básica, área considerada estratégica para o desempenho do sistema educacional como um todo.
Para Patrícia Albieri de Almeida, a valorização dessas experiências se torna ainda mais importante em um contexto de transformação permanente no modo como se aprende e se ensina. “Com as mudanças constantes nas formas de aprender e ensinar, os cursos de licenciatura são cada vez mais desafiados a preparar profissionais que dialoguem com novas realidades da sala de aula. Assim, ao valorizar o professor que ensina a ensinar e divulgar experiências bem-sucedidas, o prêmio contribui, mesmo que indiretamente, para a melhoria das práticas de formação inicial”, afirmou.
A fala revela um ponto central do debate educacional contemporâneo. O desafio de formar professores hoje não se resume ao domínio de conteúdo. Exige também compreensão sobre diversidade, tecnologia, práticas inclusivas, mediação pedagógica, contexto social e capacidade de diálogo com estudantes de diferentes realidades. Nesse cenário, experiências inovadoras nas licenciaturas têm papel decisivo para romper modelos engessados e ampliar repertórios de formação.
O caso dos professores amapaenses premiados ilustra bem essa perspectiva. Em um projeto, o foco esteve na valorização de saberes indígenas e na construção de materiais didáticos conectados à realidade amazônica. No outro, a proposta apostou na memória pessoal e nos objetos biográficos como ferramentas de compreensão histórica e construção da identidade docente. Embora diferentes entre si, os dois trabalhos compartilham um ponto essencial: a tentativa de tornar a formação inicial mais viva, mais crítica e mais próxima do mundo real em que os futuros professores irão atuar.
Essas experiências ajudam a mostrar que inovação pedagógica não precisa significar ruptura com a sensibilidade, com o território ou com a experiência humana. Ao contrário, muitas das práticas mais transformadoras nascem justamente da escuta, da observação do contexto e da disposição para rever modos tradicionais de ensinar. Ao premiar iniciativas como essas, a Fundação Carlos Chagas também envia um sinal ao país de que a formação docente precisa ser pensada com profundidade e criatividade.
A instituição responsável pela premiação tem longa atuação no campo educacional brasileiro. A Fundação Carlos Chagas é uma entidade de direito privado e sem fins lucrativos, reconhecida há mais de seis décadas por sua atuação em concursos, processos seletivos e pesquisas educacionais. Ao longo da trajetória, já realizou mais de 2,7 mil projetos, atendeu 550 instituições e avaliou mais de 313 milhões de candidatos. Por meio de seu Departamento de Pesquisas Educacionais, mantém investigações voltadas a temas como avaliação, políticas públicas, formação e trabalho docente, direitos sociais e relações de gênero, raça e geração.
Esse histórico ajuda a explicar o peso institucional do prêmio e a relevância simbólica do reconhecimento dado aos docentes. Em um país que costuma discutir os problemas da educação a partir da escassez de resultados ou da crise de aprendizagem, iniciativas voltadas à valorização de boas práticas em licenciaturas cumprem papel importante ao deslocar o foco também para o que está sendo produzido de forma qualificada dentro das universidades.
No caso do Amapá, o reconhecimento nacional de projetos desenvolvidos na Unifap reforça a capacidade das instituições amazônicas de contribuir com soluções pedagógicas originais e enraizadas em seus próprios contextos. Em vez de apenas reproduzir modelos vindos dos grandes centros, as experiências premiadas mostram que há produção acadêmica relevante sendo construída a partir das especificidades regionais, com impacto sobre a formação de professores e sobre o entendimento da educação brasileira em sua diversidade.
Com inscrições abertas para a 16ª edição, o prêmio volta a lançar um convite a docentes de todo o país: transformar experiências de formação em referência pública. Em um sistema educacional que depende diretamente da qualidade de seus professores, dar visibilidade a quem trabalha para formar melhor esses profissionais é também uma maneira de investir no futuro da escola brasileira.





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