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Boa Vista,15/05/2026

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Maternidade inspira liderança nos negócios

Executivas de grandes empresas compartilham aprendizados da vida materna que também impulsionam decisões, cultura corporativa e crescimento sustentável


Maternidade inspira liderança nos negócios

A presença feminina em cargos estratégicos segue em expansão no Brasil e no mundo, mas o avanço da liderança das mulheres ainda caminha ao lado de um desafio persistente: conciliar a carreira com a vida pessoal e, em muitos casos, com a maternidade. Em vez de enxergar esse cenário apenas como um obstáculo, um grupo de executivas brasileiras tem transformado a experiência de ser mãe em fonte concreta de aprendizado para os negócios.

Organização, presença, resiliência, clareza nas decisões, rede de apoio e capacidade de adaptação aparecem entre as competências que nasceram ou foram fortalecidas na rotina familiar e passaram a influenciar diretamente a forma como essas líderes conduzem empresas, equipes e processos de crescimento.

Esse movimento ganha relevância em um contexto em que a liderança feminina alcança números históricos, mas ainda convive com desigualdades estruturais. Segundo o relatório Women in Business 2024, da Grant Thornton, as mulheres já ocupam cerca de 33% dos cargos de liderança sênior no mundo, o maior índice já registrado.

Ainda assim, o equilíbrio entre vida profissional e pessoal segue como um dos principais entraves para a equidade. No Brasil, esse cenário tem contornos próprios. Levantamentos do IBGE e do LinkedIn mostram que mulheres com filhos continuam enfrentando sobrecarga maior no dia a dia, ao mesmo tempo em que desenvolvem habilidades hoje cada vez mais valorizadas no ambiente corporativo, como inteligência emocional, gestão do tempo e resiliência.

É nesse contexto que cinco líderes à frente de grandes empresas decidiram compartilhar lições da maternidade que também aplicam na gestão de seus negócios. As histórias ajudam a iluminar um novo modelo de liderança, menos rígido, mais humano e conectado à vida real.

Também reforçam uma mudança importante na cultura empresarial: a ideia de que cuidar, educar, improvisar, priorizar e sustentar relações não são apenas competências do ambiente doméstico, mas ativos valiosos para a gestão contemporânea.

Andrea Kohlrausch, presidente da Calçados Bibi, resume esse aprendizado em dois pilares que considera decisivos: organização e rede de apoio. Para ela, equilibrar os diferentes papéis da vida não é simples, especialmente quando se está à frente de uma empresa com mais de 1.200 colaboradores e uma rede de franquias com mais de 150 lojas no Brasil e na América Latina.



Ainda assim, foi justamente na tentativa de conciliar a presidência da companhia com a maternidade que ela desenvolveu mecanismos que hoje sustentam sua atuação profissional. “Organização e rede de apoio são pilares do crescimento. Aprendi a descentralizar tarefas e a otimizar meu tempo. Sem isso, seria impossível conciliar a agenda profissional com a vida familiar”, afirma.

Segundo a executiva, o desafio de ser líder e mãe passa por administrar responsabilidades que se multiplicam em várias direções. Gestora, empreendedora, mãe, esposa, filha e amiga, Andrea diz que a organização se tornou essencial para contemplar todos os compromissos com equilíbrio e sem alimentar sentimentos de culpa e infelicidade.

“Para dar conta dos deveres de ser presidente de uma empresa com mais de 1.200 colaboradores e uma rede de franquias com mais de 150 lojas no Brasil e na América Latina, tive que desenvolver uma rede de apoio e, ao longo do tempo, aprendi a descentralizar algumas tarefas. Com dois filhos, foi necessário administrar a agenda deles à distância, devido aos compromissos profissionais e, dessa forma, otimizar meu tempo de forma mais eficiente”, revela.
Ela também chama atenção para um ponto que costuma ser negligenciado justamente por mulheres que tentam dar conta de muitas frentes ao mesmo tempo: o autocuidado. Andrea conta que, durante anos, a saúde ficou em segundo plano diante das demandas cotidianas. Hoje, a mudança de rotina inclui acordar às 5h15 para reservar o primeiro horário do dia para si mesma.

“Sempre gostei de esportes, mas vivi fases de sedentarismo. Hoje, acordo às 05h15 para me priorizar e ter uma vida mais ativa e saudável. Enquanto todos dormem, já estou iniciando as atividades físicas para estar bem, desenvolver a agenda profissional e ter um tempo de qualidade com minha família”, finaliza.
Na prática, a fala traduz uma visão de liderança que entende performance como consequência de equilíbrio e não apenas de produtividade.

A CEO e fundadora da LIS Play, Ana Medici, amplia essa reflexão ao defender que o desafio não está em dividir a vida em partes iguais, mas em reduzir atritos entre elas. Para ela, a conciliação entre maternidade e liderança não deve ser lida como uma disputa por espaço entre dois mundos, e sim como um exercício de integração.

“Integração entre vida pessoal e profissional. Conciliar maternidade e liderança não é sobre equilibrar tudo igualmente, mas sobre reduzir atritos e tornar a rotina mais fluida”, afirma.


A executiva usa, inclusive, uma referência do próprio negócio para explicar sua visão. Se no vídeo commerce o objetivo é eliminar fricções na experiência do usuário, no cotidiano de uma líder que também é mãe o desafio passa por suavizar os choques entre trabalho e vida pessoal, permitindo que a rotina flua com mais naturalidade.

Nesse processo, ela considera que as prioridades mudam o tempo todo, e o mais importante é saber onde estar inteira em cada momento. Estar presente de forma genuína, segundo Ana, vale mais do que apenas estar disponível. A ideia desloca a discussão do mito do equilíbrio perfeito para uma lógica mais concreta, baseada em presença de qualidade, decisões conscientes e aceitação da imperfeição.

Outro elemento central em sua fala é a recusa da culpa como critério de escolha. Para sustentar a rotina, ela defende um time forte, uma boa rede de apoio e o uso da tecnologia como aliada na busca por eficiência.

Mais do que tentar corresponder a um ideal impossível de perfeição, a executiva propõe uma liderança construída ao longo do caminho, em diálogo com os próprios valores e com o impacto que se deseja gerar dentro e fora de casa. O raciocínio ajuda a desmontar uma cobrança ainda muito presente sobre mulheres em posição de comando: a expectativa de que elas sejam impecáveis em todas as frentes ao mesmo tempo.

A história de Bruna Vasconi, sócia-fundadora do Peça Rara Brechó, oferece talvez uma das traduções mais concretas dessa integração entre maternidade e empreendedorismo. No caso dela, o negócio nasceu no meio da própria construção da vida familiar. “Empreender com propósito e adaptabilidade. Construí o negócio junto com a minha família, adaptando a rotina e as decisões conforme cada fase”, resume.


Bruna conta que o empreendedorismo sempre caminhou em paralelo à maternidade. Aos 19 anos, ainda na faculdade de Psicologia, casou-se e teve o primeiro filho. Logo depois veio a segunda filha, e a necessidade de complementar a renda a levou a vender lingeries, chocolates, semijoias e itens de beleza na universidade.

A partir daí, começou a organizar uma lógica de negócio que mais tarde encontraria no brechó infantil um modelo viável, acessível e aderente à sua realidade. Com um empréstimo de R$ 7 mil da avó, abriu o primeiro brechó com uma amiga, usando peças dos próprios filhos e de amigas. O que começou como alternativa de renda se transformou no Peça Rara Brechó.

A trajetória revela como a maternidade também pode ser motor de visão prática, criatividade e capacidade de adaptação. O negócio cresceu junto com a família e se profissionalizou ao longo dos anos. Hoje, mesmo após a chegada de mais dois filhos, a operação se expandiu para o franchising, mantendo como eixo a curadoria, o consumo consciente e a integração entre gestão e rotina familiar. Há um ano, Bruna deixou o cargo de CEO para um executivo de mercado e assumiu a presidência do conselho da empresa.

Ainda assim, segue na liderança de uma rede com mais de 130 lojas no país e faturamento em torno de R$ 300 milhões em 2025. Sua história mostra que a maternidade não apenas acompanha a trajetória empreendedora, mas muitas vezes molda a forma de pensar o crescimento, o propósito do negócio e a própria capacidade de fazer transições estratégicas.

Na Royal Face, a CEO Claudia Abreu traduz esse aprendizado em uma ideia poderosa: liderança com propósito e legado. Mãe de dois filhos adolescentes, ela vê na maternidade um fator que amplia a consciência sobre o valor de abrir caminhos e dar exemplo. “Liderança com propósito e legado. Ser mãe potencializa a liderança. Passamos a entender ainda mais o valor de abrir caminhos e dar exemplo”, afirma.



À frente de uma das maiores redes de estética do país, Claudia construiu sua carreira liderando projetos complexos e acelerando negócios. No entanto, a maternidade acrescentou uma camada mais humana à sua forma de gestão, sem diminuir o foco em resultados. Sua fala sugere que liderança não se resume a entrega, expansão e performance, mas também à capacidade de formar cultura e deixar marcas nas próximas gerações.

“Liderar é transformar potencial em resultado com propósito. E ser mãe potencializa isso. A gente passa a entender ainda mais o valor de construir caminhos, abrir portas e dar exemplo. Quando mais mulheres ocupam posições estratégicas, criamos empresas mais fortes e uma sociedade mais preparada para o futuro”, afirma.
A declaração aponta para um tema cada vez mais relevante no debate sobre liderança feminina: a conexão entre representatividade e transformação estrutural. Quando mulheres chegam a posições de decisão e conseguem permanecer nesses espaços, elas não apenas ampliam a pluralidade dentro das empresas, mas ajudam a redefinir o que se entende por autoridade, cultura e legado. Nesse sentido, a maternidade aparece menos como um elemento de fragilidade e mais como uma lente que amplia o senso de responsabilidade, empatia e visão de longo prazo.

Luciana Melo, CEO do Café Cultura, segue linha parecida, mas com ênfase na qualidade da presença e na comunicação transparente. Para ela, conciliar maternidade e liderança também não significa buscar um equilíbrio idealizado, e sim fazer escolhas conscientes dentro de uma rotina dinâmica. “Presença de qualidade e comunicação transparente. Mais importante que o tempo é a qualidade da presença, tanto no trabalho quanto com a família”, resume.

A executiva defende que o caminho mais realista não é separar rigidamente vida pessoal e profissional, mas integrar essas dimensões com honestidade e flexibilidade. As prioridades mudam, e a exigência central passa a ser a presença genuína no momento em que se está. Para sustentar isso, delegar é essencial, tanto no ambiente corporativo quanto na vida pessoal. A construção de uma rede de apoio sólida volta a aparecer aqui como fator decisivo, assim como a recusa de tomar decisões guiadas pela culpa. Em vez disso, Luciana aponta a importância de agir com base em valores e propósito.

Ela também destaca o papel do autocuidado e da criação de rituais de conexão com a família, elementos que ajudam a dar consistência à rotina e a preservar vínculos em meio à pressão dos compromissos. Sua fala dialoga com uma percepção cada vez mais presente no mundo corporativo: a de que líderes mais humanos não são menos eficientes, mas muitas vezes mais preparados para lidar com times, conflitos, mudanças e desafios de forma sustentável.

O conjunto desses relatos revela um ponto em comum: a maternidade, longe de ser apenas um desafio logístico na vida de mulheres em cargos de liderança, também funciona como escola de competências sofisticadas. Saber priorizar, negociar tempo, confiar em outras pessoas, lidar com imprevistos, manter relações, comunicar com clareza e seguir mesmo em cenários de exaustão são capacidades que atravessam o ambiente doméstico e chegam com força à gestão empresarial.

Há também um dado simbólico importante nessas histórias. Todas elas ajudam a desafiar uma visão antiga, segundo a qual a maternidade interromperia ou limitaria o potencial de crescimento profissional das mulheres. O que essas executivas mostram é algo mais complexo e contemporâneo: embora a sobrecarga exista e a desigualdade siga impondo barreiras reais, a experiência materna também pode ampliar repertórios, aprofundar a inteligência relacional e fortalecer a capacidade de liderança.

No fundo, os depoimentos convergem para um novo desenho de comando. Um modelo menos baseado em rigidez e controle absoluto e mais conectado a presença, escuta, adaptabilidade, consciência do tempo e sentido de propósito. Em um ambiente corporativo que valoriza inovação, cultura, agilidade e sustentabilidade humana, essas habilidades deixam de ser vistas como complementares e passam a ocupar o centro da estratégia.

Ao compartilhar suas vivências, Andrea Kohlrausch, Ana Medici, Bruna Vasconi, Claudia Abreu e Luciana Melo também oferecem um tipo de inspiração que vai além do discurso motivacional. Elas mostram, na prática, que a maternidade não precisa ser escondida nem tratada como um ruído na trajetória executiva. Ao contrário, pode ser parte constitutiva de uma liderança mais consistente, madura e preparada para a complexidade do presente.

No Dia das Mães, essas histórias ganham ainda mais força porque reposicionam o debate. Não se trata apenas de celebrar mulheres que conseguem “dar conta de tudo”, mas de reconhecer que o mundo dos negócios tem muito a aprender com competências forjadas no cuidado, na escuta e na administração cotidiana da vida real.
Ao transformar essas experiências em estratégia, essas líderes ajudam a redesenhar o futuro da gestão e ampliam o espaço para outras mulheres que buscam crescer sem apagar partes fundamentais de suas trajetórias.




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