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Boa Vista,27/08/2026

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El Niño intensifica alerta climático e Rio Branco registra níveis baixos para o período em Roraima

Boletim climático aponta que o novo El Niño avança sobre um planeta já mais quente, enquanto Roraima concentra sinal de atenção com redução dos níveis do Rio Branco


El Niño intensifica alerta climático e Rio Branco registra níveis baixos para o período em Roraima Rio Branco apresenta extensos bancos de areia em Boa Vista; Serviço Geológico do Brasil aponta níveis mínimos para esta época do ano em Roraima.

Roraima aparece entre os pontos de atenção no atual cenário climático brasileiro. Enquanto um novo El Niño ganha força no Oceano Pacífico e se desenvolve sobre temperaturas globais já excepcionalmente elevadas, o Rio Branco registra algumas das menores cotas observadas para esta época do ano.

A combinação entre calor acima da média, redução das chuvas no Norte e queda dos rios amplia a preocupação com abastecimento, transporte fluvial, queimadas e comunidades que dependem diretamente dos cursos d'água.

Os dados fazem parte do Boletim do El Niño, elaborado pelo Instituto ClimaInfo a partir de indicadores meteorológicos e hidrológicos. O levantamento chama atenção para uma diferença importante em relação a outros episódios: o fenômeno de 2026 começa sem que a temperatura média global tenha retornado aos níveis registrados antes do grande El Niño de 2023 e 2024.

Isso significa que o novo evento climático parte de uma base mais quente.

Uma comparação utilizada pelo Carbon Brief ajuda a explicar o cenário. O aquecimento global funciona como uma escada em elevação contínua. Sobre ela, eventos fortes de El Niño provocam saltos temporários adicionais na temperatura.

Após esses saltos, a temperatura pode recuar quando o fenômeno perde força, mas não necessariamente retorna ao degrau anterior.

Rio Branco acende sinal de atenção em Roraima

Entre os indicadores acompanhados na Amazônia, dez das 11 estações analisadas registraram redução dos níveis dos rios na última semana.

A exceção foi o Rio Acre, em Rio Branco, que apresentou recuperação e voltou à faixa considerada normal.

Em Roraima, porém, o comportamento é diferente. O Rio Branco concentra um dos principais sinais de alerta, com níveis entre os mais baixos registrados para esta época do ano.

A situação tem impacto que vai muito além da paisagem.

Na Amazônia, os rios funcionam como importantes corredores de transporte. Quando os níveis caem significativamente, embarcações enfrentam dificuldades de navegação e determinadas rotas podem ficar inviáveis.

O reflexo pode chegar ao transporte de alimentos, combustíveis, medicamentos e pacientes, especialmente em comunidades ribeirinhas e localidades com acesso predominantemente fluvial.

A persistência da redução também exige acompanhamento porque o período coincide com o avanço da estação mais seca em parte da Região Norte.

Para Roraima, acompanhar o comportamento do Rio Branco nas próximas semanas será essencial para identificar se a redução permanece dentro da variabilidade sazonal ou se avança para um quadro mais severo.

El Niño está próximo da faixa de muito forte

O aquecimento na região Niño 3.4, uma das principais áreas utilizadas para monitorar o fenômeno no Pacífico, avançou continuamente desde maio e se estabilizou nas duas leituras mais recentes citadas pelo boletim.

Mesmo com a interrupção momentânea da alta, o indicador está cerca de 0,2°C abaixo da faixa classificada como El Niño muito forte.

Segundo o levantamento, esse nível foi alcançado pelo episódio de 2015-2016.

Quanto mais intenso o El Niño, maior tende a ser sua influência sobre padrões de temperatura e precipitação em diferentes regiões do planeta.

No Brasil, uma das características frequentemente associadas ao fenômeno é a distribuição desigual das chuvas, com tendência de maior precipitação no Sul e condições mais secas em partes do Norte e Nordeste.

Os dados de julho já apresentaram comportamento semelhante: o Norte registrou déficit de precipitação, enquanto o Sul apresentou volumes acima da média.

Temperatura global parte de patamar elevado

Os últimos anos ajudam a dimensionar o problema.

Segundo os dados apresentados pelo boletim, 2023, 2024 e 2025 foram os três anos mais quentes da série histórica recente, com 2024 ocupando a primeira posição.

O El Niño iniciado em 2023 contribuiu para elevar temporariamente a temperatura média global e 2024 tornou-se o primeiro ano completo com temperatura próxima de 1,5°C acima do período pré-industrial.

Quando aquele evento terminou, houve redução da temperatura, inclusive sob influência de uma La Niña fraca.

Ainda assim, 2025 permaneceu praticamente empatado com 2023 entre os anos mais quentes já observados.

Essa permanência em níveis elevados é um dos pontos centrais para compreender o risco associado ao El Niño atual.

O fenômeno natural não é responsável sozinho pelo aquecimento global. Ele funciona sobre uma tendência de aumento da temperatura associada à mudança climática, potencializando temporariamente os extremos.

2027 poderá estabelecer novo recorde

As projeções para o próximo ano reforçam o alerta.

O Met Office, autoridade meteorológica do Reino Unido, considera muito provável que 2027 supere 2024 como o ano mais quente já registrado.

Ainda existe incerteza sobre a dimensão exata desse eventual recorde.

Algumas projeções mencionadas pelo boletim colocam a média global próxima de 1,7°C acima dos níveis pré-industriais, embora os estudos adotem metodologias e períodos de referência diferentes.

Pesquisadores da Universidade de Graz, na Áustria, projetam uma média próxima de 1,71°C para 2027.

Outras análises independentes também colocam temperaturas em torno desse patamar entre os cenários possíveis.

A projeção não significa que o planeta já terá ultrapassado definitivamente um determinado limite climático de longo prazo. Médias anuais podem variar bastante devido à influência de fenômenos naturais como El Niño e La Niña.

Ainda assim, sucessivos recordes são considerados sinais da trajetória de aquecimento.

Seca avança pelo Brasil

O boletim também mostra que a seca se expandiu em quatro das cinco regiões brasileiras durante julho.

Mais da metade do território nacional passou a apresentar algum grau de seca.

O Sudeste aparece como a região proporcionalmente mais atingida, com quase 90% de seu território sob condições de seca.

No Sul ocorreu o movimento contrário. A área afetada caiu de aproximadamente três quartos do território para praticamente nenhuma em apenas um mês.

Esse contraste entre regiões secas no Centro-Norte e maior disponibilidade de chuva no Sul é compatível com padrões associados ao El Niño.

Para os próximos meses, a previsão apresentada indica chuvas abaixo da média em quatro das cinco regiões brasileiras até outubro.

Somente o Sul deverá registrar precipitação acima do normal.

As temperaturas, por outro lado, devem permanecer acima da média em todas as regiões.

Amazônia enfrenta aumento do fogo

Outro indicador que preocupa é o avanço das queimadas.

Segundo os dados reunidos pelo ClimaInfo, agosto já superou o mesmo mês do ano passado em área ou ocorrência de fogo acompanhada pelo levantamento.

A mudança interrompe uma tendência observada até julho, quando 2026 apresentava números inferiores aos de 2025.

A Amazônia ultrapassou o Cerrado e passou a concentrar a maior parte dos focos registrados no mês, com Mato Grosso, Pará e Amazonas entre os estados com maior ocorrência.

Calor, baixa umidade, vegetação seca e redução da chuva criam condições mais favoráveis para propagação do fogo.

Em Roraima, onde períodos secos historicamente estão associados ao aumento do risco de incêndios florestais e queimadas, a evolução do El Niño exige monitoramento adicional.

Cenário exige acompanhamento em Roraima

A situação do Rio Branco coloca o estado diretamente dentro desse cenário climático mais amplo.

A redução dos níveis dos rios, somada à perspectiva de chuva abaixo da média no Norte e de temperaturas elevadas, pode aumentar a pressão sobre ambientes naturais e comunidades dependentes dos recursos hídricos.

Os próximos meses serão importantes para verificar como o atual El Niño vai influenciar Roraima.

O fenômeno ainda está em evolução, e sua intensidade final permanece sujeita a mudanças.

Mesmo assim, os indicadores atuais mostram que o novo El Niño ocorre em condições diferentes das observadas algumas décadas atrás: a temperatura global de fundo está mais alta.

Isso significa que fenômenos naturais de variabilidade climática agora interagem com um planeta progressivamente mais aquecido.

Em Roraima, o nível do Rio Branco pode ser um dos indicadores mais visíveis dessa combinação.




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