Cerco à logística do garimpo reduz em 99% abertura de novas áreas na Terra Yanomami
Fiscalização de aeronaves, pistas clandestinas, combustíveis, embarcações e rotas de abastecimento se consolidou como eixo central da operação federal contra a exploração ilegal
Agentes da PRF realizam fiscalização em veículo durante operação de combate ao garimpo ilegal e controle de rotas de abastecimento em Roraima. A ofensiva do Governo Federal contra o garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami vem apostando cada vez mais em uma estratégia direta: sufocar a logística que mantém a atividade funcionando dentro da floresta. Em vez de concentrar a resposta apenas na destruição de acampamentos ou na retirada de invasores de áreas específicas, a operação passou a mirar com mais intensidade os meios que permitem a permanência do garimpo, como aeronaves, pistas clandestinas, combustíveis, embarcações, motores, equipamentos de comunicação e rotas de suprimentos.
O efeito dessa pressão aparece no monitoramento oficial do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia, o Censipam, que aponta redução de 99% no surgimento de novos garimpos desde a implantação da Casa de Governo, em março de 2024.
O dado é tratado pelo governo como um dos sinais mais fortes de que a estratégia de estrangulamento da cadeia de abastecimento vem produzindo resultados. Na prática, a lógica é simples. Sem transporte, sem combustível, sem equipamentos e sem comida, o garimpo perde capacidade de avançar, encontra dificuldade para se reorganizar e passa a operar com custo mais alto e menor margem de sobrevivência em áreas remotas da floresta. O que se busca, portanto, não é apenas desmontar estruturas visíveis, mas atingir o funcionamento cotidiano da atividade ilegal.
Ao longo de maio, a operação reforçou esse foco logístico com ações terrestres, fluviais e aéreas voltadas ao monitoramento de rios, pistas de pouso, estradas, postos de abastecimento, portos improvisados e demais corredores usados para levar insumos às áreas de exploração mineral. Dentro dessa estrutura, o Comando Conjunto Catrimani II, que reúne Exército, Marinha e Aeronáutica, manteve patrulhamento permanente em regiões historicamente afetadas pelo garimpo ilegal.
Na última semana de maio, militares realizaram ações de vasculhamento e patrulhamento fluvial em áreas como Herepi e Garimpo do Baiano, a partir de bases avançadas instaladas em Waikás e Kayanaú. A permanência de equipes em pontos remotos tem sido tratada como um componente decisivo da estratégia, justamente porque reduz o espaço para reocupação e dificulta a volta de frentes ilegais a territórios já alcançados pelas ações de desintrusão.
Os números do mês ajudam a mostrar a dimensão dessa ofensiva. Somente em maio de 2026, foram realizadas 310 ações de combate ao garimpo ilegal. Nesse intervalo, as equipes promoveram 1.060 abordagens e fiscalizaram 1.029 veículos, 53 aeronaves, 15 pistas de pouso e seis postos de abastecimento. O volume revela que a fiscalização não se limitou ao interior da terra indígena, mas alcançou toda a estrutura que sustenta o funcionamento do garimpo, dentro e fora do território.
O balanço também detalha apreensões e inutilizações realizadas no período. Foram apreendidas duas aeronaves, dois armamentos, uma embarcação e duas máquinas leves. Já entre os materiais e estruturas inutilizados aparecem 19 acampamentos, 10 balsas, nove embarcações, nove esteiras separadoras de minério, uma aeronave, uma antena de comunicação, 41 motores, 11 geradores e 47 máquinas leves. Além disso, as equipes inutilizaram 1.537 litros de óleo diesel, 640 litros de combustíveis e 900 quilos de cassiterita.
Não se trata apenas de retirar pessoas ou desmontar barracos improvisados. O que o balanço mostra é uma ação focada em quebrar a base material da atividade ilegal. Em regiões de floresta densa e acesso difícil, o combustível tem valor estratégico. É ele que faz funcionar motores, embarcações, geradores e deslocamentos.
O mesmo vale para rádios, placas solares e equipamentos de comunicação, que garantem permanência, articulação e segurança para grupos que operam de forma clandestina. Ao inutilizar esse conjunto, a operação torna o ambiente mais hostil à manutenção do garimpo.
As ações alcançaram diferentes pontos da Terra Indígena Yanomami. Em Onkiola e na Pista do Dicão, equipes da Força Nacional de Segurança Pública e da Fundação Nacional dos Povos Indígenas localizaram e inutilizaram acampamentos, motores, geradores, esteiras de separação de minério e estoques de cassiterita. Já na região do Aracaçá, foram identificadas estruturas de apoio ao garimpo, incluindo combustíveis, rádios de comunicação, placas solares e equipamentos usados para permanência em áreas mais isoladas.
Esses achados ajudam a dimensionar o nível de organização da atividade ilegal. O garimpo dentro da Terra Yanomami não se sustenta apenas por improviso ou por ações isoladas de pequenos grupos. Ele depende de uma rede de transporte, fornecimento, armazenamento, comunicação e escoamento que precisa funcionar com alguma regularidade para manter as frentes ativas. É exatamente essa engrenagem que a operação tenta desmontar.
Outro ponto importante é que o combate não se limita ao interior da terra indígena. Parte da estratégia atual mira justamente os corredores externos de abastecimento, onde alimentos, combustíveis, motores, mercúrio e outros insumos entram na cadeia de apoio ao garimpo.
Com apoio da Força Nacional, a Agência Nacional de Transportes Terrestres realizou fiscalizações em Mucajaí, Apiaú, Campos Novos e Roxinho, regiões apontadas como rotas logísticas para abastecimento das áreas ilegais. Em uma dessas abordagens, foi identificado transporte de alimentos destinados a invasores que atuavam no território indígena.
A Polícia Rodoviária Federal também atuou nesse eixo ao controlar rotas de escoamento do minério. Em uma ação na BR-174, foram apreendidos cerca de quatro quilos de ouro transportados sem documentação fiscal ou autorização ambiental. O episódio mostra que a ofensiva busca alcançar toda a cadeia da atividade ilegal, da entrada de suprimentos à saída do minério, e não apenas o local onde a extração acontece.
Ao lado das forças de segurança, a Funai mantém papel permanente na operação. Servidores da Frente de Proteção Etnoambiental Yanomami e Ye'kwana seguem contribuindo com o monitoramento de áreas remotas, a identificação de acampamentos e de rotas utilizadas por invasores e o apoio direto às ações de fiscalização. Em um território de grande extensão e acesso complexo, o conhecimento acumulado sobre as dinâmicas locais se torna peça-chave para orientar as operações.
Os resultados de maio se somam ao esforço contínuo realizado desde a implantação da Casa de Governo, em março de 2024. Desde então, a Operação de Desintrusão da Terra Indígena Yanomami contabiliza 10.554 ações.
Nesse período, o balanço oficial aponta a apreensão de 184 veículos, 51 embarcações, 164 armamentos, 3.595 munições, 249 quilos de ouro e mais de uma tonelada de mercúrio.
Também foram inutilizados, desde a abertura da Casa de Governo, 907 acampamentos, 87 pistas de pouso, 55 aeronaves, 312 embarcações, 171 balsas, 39 dragas, 529 esteiras separadoras de minério, 201 antenas de comunicação, 578 geradores e 2.229 motores.
No campo dos combustíveis, o bloqueio das rotas de abastecimento levou ainda à inutilização de mais de 254 mil litros de óleo diesel, 65 mil litros de gasolina e 16 mil litros de gasolina de aviação.
O volume dessas ações mostra que a resposta federal deixou de ter perfil episódico para assumir caráter de permanência. Essa talvez seja a principal diferença em relação a iniciativas anteriores.
O governo sustenta que, sem presença contínua, a retirada de estruturas isoladas não seria suficiente para evitar a reorganização dos invasores. Por isso, a manutenção de fiscalização constante passou a ser tratada como parte da própria política de proteção territorial.
Os números acumulados também incluem 369 prisões e detenções, 48 embargos, 283 notificações e R$ 12,3 milhões em multas aplicadas. Segundo o balanço oficial, o conjunto das ações provocou prejuízo estimado em R$ 709 milhões ao garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami.
Mais do que um dado financeiro, essa estimativa ajuda a explicar o raciocínio por trás da operação. A intenção não é apenas expulsar garimpeiros ou desmontar estruturas pontuais, mas tornar a atividade inviável economicamente. Ao elevar o custo operacional, destruir equipamentos, bloquear abastecimento e interromper rotas de circulação, o Estado busca reduzir o incentivo para que a exploração volte a se instalar ou se expanda na região.
O desafio, no entanto, continua sendo o da permanência. A queda de 99% no surgimento de novas áreas de garimpo é expressiva, mas não significa que a ameaça tenha desaparecido. O próprio número de ações realizadas em maio mostra que ainda existe esforço de rearticulação por parte de grupos ilegais. A resposta, por isso, segue baseada em vigilância contínua, pressão logística e presença permanente em pontos estratégicos do território.
É essa presença constante, aliada ao bloqueio das rotas de suprimento, que o governo aponta hoje como principal barreira contra a reocupação da Terra Yanomami. O foco deixou de ser apenas o garimpo visível na clareira e passou a alcançar a engrenagem que o sustenta. E é justamente nessa engrenagem, ao que indicam os números oficiais, que a operação parece ter encontrado seu ponto mais sensível.





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