'Não era a hora do meu pai', diz filho de homem que morreu após ser atendido por falso médico

Parentes lamentam mortes de pacientes atendidos por falsos médicos: 'Não era a hora do meu pai'
Falsidade ideológica, exercício ilegal da medicina, homicídio com dolo eventual. Esses são alguns dos crimes listados na investigação da Polícia Civil de São Paulo, que prendeu um falso médico esta semana.
Marcos Phelipe de Barros se apresentava como "Nicolas Joseph Della Matta". Em um vídeo, ele aparece aplicando injeção em uma mulher em plena calçada. Outro falso médico, Mayke César Silva, está foragido. Ele usava a identidade de um quase homônimo: Mike José do Nascimento Florentino. Os dois acusados trabalhavam no Hospital Jardim Helena, na Zona Leste da capital paulista. Tudo começou com uma denúncia anônima, conta o delegado da Polícia Civil de SP José Mariano de Araújo Filho:
“Alguém da população mandou um disque-denúncia dizendo: ‘Tem falso médico no hospital tal’. Ao verificar o quadro médico, a gente percebeu que, de dois, algumas informações não batiam. Eles obtiveram cópias reais físicas dos documentos, certificado de registro médico, diplomas universitários e, a partir daí, começaram a atuar naquele hospital”.
Segundo relatos de ex-funcionários obtidos pelo Fantástico, Mayke, que na verdade é biomédico, atendia no pronto-socorro e na pediatria; e Marcos Phelipe, que é instrumentador cirúrgico, só no pronto-socorro. Marcos Phelipe é descrito como imaturo pessoal e profissionalmente. Pacientes mais críticos, ele encaminhava para a UTI para não precisar atendê-los.
Repórter: A polícia sabe quantos pacientes eles chegaram a atender?
José Mariano de Araújo Filho, delegado: A questão aqui é que são 9 mil atendimentos. Então, nesses atendimentos, a mesma pessoa foi atendida uma, duas, três vezes até. Por volta de 2 mil pessoas que passaram pelas mãos desses falsos médicos.
'Não era a hora do meu pai', diz filho de homem que morreu após ser atendido por falso médico
Fantástico/ Reprodução
Pelo menos nove mortes estão sob suspeita. O Fantástico ouviu parentes de pessoas que faleceram depois de passarem pela emergência do hospital.
“Ele tinha autoridade. Ele mandava e o pessoal obedecia. Não passou pela minha cabeça em nenhum momento que ele não era médico”, conta Guilherme Lucena, filho de uma vítima.
Em 2025, o pai dele, o bombeiro aposentado Cabo Lucena, procurou atendimento. A suspeita era de dengue. Marcos Phelipe disse a Guilherme que o senhor Lucena precisaria ser entubado.
“Estava confiando em um médico. Poxa, se é o único jeito de trazer meu pai de volta, sim, claro, tudo bem. Eu autorizei”, conta Guilherme Lucena.
Pouco depois veio a notícia.
“Eu só desabei e não consegui mais reagir. Eu só queria chorar naquele momento, eu não queria falar com ninguém. Muito difícil. Perdi meu pai”, diz Guilherme.
Guilherme só soube pela polícia que o pai foi atendido por um falso médico:
“Nem imaginava. Eu tinha certeza que não era para o meu pai morrer. Quando eu soube da investigação, aí que eu tive mais certeza ainda que não era a hora do meu pai", diz Guilherme Lucena.
A polícia investiga pelo menos mais oito mortes relacionadas à atuação de Marcos Phelipe de Barros e Mayke César Silva. Uma delas, a da mãe da Tainá e avó da Marina. Tânia frequentava o Hospital Jardim Helena por causa de uma doença crônica e conhecia os dois falsos médicos. Em junho de 2025, um exame de sangue identificou um infarto, o que levou Marcos Phelipe, o falso Nicolas, a encaminhá-la para um cateterismo. O procedimento aconteceu em outro hospital e, em seguida, ela voltou para a UTI do Jardim Helena.
“No outro dia, direto da UTI, ela teve alta. Recebeu alta umas 16h e faleceu meia-noite. A gente acaba pensando: e se, né? E se ela tivesse sido atendida, se ela tivesse tido um tratamento adequado. É muito triste. Muito revoltante”, afirma a estudante de Direito, Tainá Cristina da Silva, filha de vítima.
Além dos dois falsos médicos, a polícia investiga Daniela Antunes Krauthamer, gestora administrativa do Hospital Jardim Helena, e Fábio das Neves Filho, gestor médico de empresa terceirizada. Os dois estão afastados de suas funções no hospital por medida cautelar.
“A responsabilidade de verificação de autenticidade e próprio registro do CRM é da empresa terceirizada. A terceirizada nos mandava, eram documentos autênticos, contudo de outras pessoas e não desses dois indivíduos que se passavam por falsos médicos. Também foram feitas diversas entrevistas com corpo médico, corpo de enfermagem. Na sindicância, verificou-se que eles tinham condição técnica e que era impossível identificar qualquer falha deles na atuação, porque, sim, eles agiam de forma correta. Os prontuários médicos foram analisados pelo hospital e não há nenhum nexo de causalidade entre a atuação desses falsos médicos com as mortes. Todas as mortes já eram esperadas pelo estado clínico já degradado desses pacientes. E todas essas análises clínicas dentro do hospital foram multidisciplinares. Não só por eles no pronto-socorro e, sim, por médicos tanto da UTI quanto clínicos dentro do hospital", diz Fábio Mariz, advogado do Hospital Jardim Helena.
Os advogados de Fábio das Neves Filho afirmaram que a contratação dos profissionais "foi realizada com base nos documentos por eles apresentados", que pareciam autênticos; e acrescentam que a documentação era encaminhada ao próprio hospital, que realizava seus procedimentos internos de conferência.
O Fantástico pediu posicionamento à defesa de Marcos Phelipe de Barros, que não se manifestou.
O Fantástico não conseguiu contato com a defesa de Mayke César Silva, que continua foragido.
Os médicos reais que tiveram seus nomes usados, Nicolas Joseph Della Matta e Mike José do Nascimento Florentino, são considerados pela polícia como vítimas do esquema. Eles não quiseram falar ao Fantástico.
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