Eleição suplementar em Roraima reúne cinco candidaturas e embaralha alianças para o governo
Com votação marcada para 21 de junho, disputa opõe nomes da direita, da esquerda e do centro político, enquanto padrinhos tradicionais e grupos locais redesenham apoios em ritmo acelerado
Eleição suplementar em Roraima reorganiza alianças e coloca novos apoios no centro da disputa pelo governo do estado. Roraima entrou, de vez, em uma campanha fora do calendário tradicional. A eleição suplementar para governador e vice-governador, marcada para 21 de junho, foi convocada após a cassação da chapa eleita em 2022 e já reorganiza o tabuleiro político do estado em tempo recorde.
Em poucas semanas, partidos precisaram definir candidaturas, costurar alianças e ocupar espaços num pleito que, embora vá preencher um mandato curto, tem peso muito maior do que o prazo no relógio sugere. A disputa virou teste de força para grupos locais, medição de influência de lideranças nacionais e ensaio para os rearranjos que ainda devem repercutir na política roraimense.
O cronograma foi fixado pelo Tribunal Regional Eleitoral de Roraima na Resolução nº 584/2026. A norma estabeleceu a realização da votação em 21 de junho, com propaganda eleitoral liberada a partir de 21 de maio, dentro de um calendário mais curto do que o das eleições regulares.
O processo foi aberto depois da confirmação da cassação da chapa formada por Antonio Denarium e Edilson Damião, o que levou à convocação de uma nova eleição direta para o Palácio Senador Hélio Campos.
Até aqui, o cenário político consolidou cinco nomes na corrida: Arthur Henrique, pelo PL; Antônia Pedrosa, pelo PT; Paulo César Quartiero, pelo Democracia Cristã; Soldado Sampaio, pelo Republicanos; e Faradilson Mesquita, pelo Solidariedade, em composição com o PRD. A quantidade de candidaturas mostra que a eleição suplementar não será apenas uma disputa administrativa para preencher uma vaga, mas um confronto real entre campos políticos distintos, com projetos, bases eleitorais e padrinhos diferentes.
Entre todos os nomes colocados à mesa, Arthur Henrique e Soldado Sampaio aparecem, neste momento, como os polos mais visíveis da disputa, não apenas pelo tamanho de suas estruturas, mas pela capacidade de atrair apoios com densidade política.
Arthur tenta se consolidar como referência da direita urbana e do bolsonarismo em Roraima. Ex-prefeito de Boa Vista, ele entrou na corrida pelo PL e vem sendo apresentado por aliados como um nome com perfil técnico, experiência administrativa e capacidade de diálogo com setores empresariais e conservadores. Sua pré-candidatura já havia sido respaldada por lideranças nacionais do partido, como Valdemar Costa Neto e Flávio Bolsonaro, e ganhou novo peso com o apoio público do ex-governador Antonio Denarium.
O gesto de Denarium mexe com o ambiente político porque une, ao menos nesta disputa, dois grupos que não eram vistos como automaticamente convergentes. Cassado pela Justiça Eleitoral, o ex-governador apareceu ao lado de Arthur em reunião com eleitores e declarou apoio ao candidato do PL, dizendo que o ex-prefeito pode manter o crescimento do estado.
O movimento acrescenta ao palanque de Arthur uma conexão importante com parte do interior e com eleitores que ainda orbitam o grupo político do antigo governo. Em campanha curta, apoio desse tipo não serve apenas como fotografia; ele pode significar capilaridade, articulação municipal e transferência de estrutura política.
Arthur também carrega outros apoios já identificados no campo conservador. Além de Denarium, ele tem o respaldo do PL, do senador Flávio Bolsonaro, do deputado federal Nicoletti e do prefeito de Boa Vista, Marcelo Zeitoune. Há ainda a possibilidade de adesão do Novo, segundo movimentações registradas no debate estadual.
O desafio de sua campanha, contudo, não é apenas acumular nomes, mas transformar esse conjunto em unidade real, sobretudo depois de ruídos públicos envolvendo a ausência de parlamentares do PL em momentos importantes de sua pré-campanha.
Do outro lado, Soldado Sampaio construiu, até agora, o arco de alianças mais largo. Presidente da Assembleia Legislativa e atual governador interino desde a vacância do cargo, ele entrou na disputa pelo Republicanos e conseguiu reunir em torno de sua candidatura um bloco amplo de partidos, parlamentares e lideranças municipais.
O campo de Sampaio agrega Republicanos, Agir, PDT, PSD, Podemos e a federação PSDB-Cidadania, além de contar com apoio de deputados federais, deputados estaduais, prefeitos e vereadores. Esse desenho o coloca como o candidato com maior musculatura institucional no momento.
O movimento mais simbólico em favor de Sampaio foi a entrada do MDB. A ex-prefeita de Boa Vista, Teresa Surita, anunciou apoio ao governador interino, e o partido formalizou a aliança com participação também do ex-senador Romero Jucá e do deputado estadual Dr. Meton. Não se trata de um apoio lateral.
Teresa continua sendo uma das figuras mais influentes da política da capital, enquanto Jucá preserva peso estratégico na costura de bastidores e na leitura de cenários. Quando esse grupo decide entrar num palanque, o gesto produz consequência política imediata, sobretudo porque reposiciona parte do eleitorado que ainda enxergava Arthur Henrique como herdeiro natural do antigo campo teresista.
O apoio de Teresa e Jucá a Soldado Sampaio também muda a narrativa da disputa. Se Arthur ganha densidade com Denarium, Sampaio responde com uma aliança que aproxima seu projeto do MDB e de uma tradição política fortíssima em Boa Vista.
Em uma eleição suplementar, em que cada apoio relevante pode alterar rotas rapidamente, esse tipo de reposicionamento não é acessório. Ele ajuda a definir onde ficarão as máquinas partidárias, os cabos eleitorais mais experientes e parte importante dos formadores de opinião no estado.
A candidatura de Antônia Pedrosa, pelo PT, ocupa outro espaço no tabuleiro. Professora e nome histórico da esquerda em Roraima, ela foi lançada com Bartô Macuxi, do Psol, como vice. Seu palanque reúne o PT, o Psol, a Rede, o PV e o PCdoB, dentro do campo progressista que tenta marcar presença em um estado de perfil majoritariamente conservador.
Mais do que disputar o centro da corrida, Antônia busca representar um projeto programático de esquerda, com discurso voltado à inclusão, aos movimentos sociais, à educação e à presença do governo federal no debate local.
Em uma leitura mais fria, Antônia não entra como favorita pelo tamanho da estrutura, mas pode ter relevância no desenho do pleito por duas razões. A primeira é consolidar um eleitorado que costuma ser minoritário, mas fiel. A segunda é influenciar o debate, puxando temas que os demais candidatos talvez evitassem num confronto dominado por campos conservadores.
Em eleição curta, candidaturas ideológicas costumam ter dificuldade de expansão, mas podem garantir densidade discursiva e marcar posição para ciclos seguintes.
Paulo César Quartiero, pelo Democracia Cristã, aparece como uma candidatura mais isolada partidariamente, mas com discurso voltado a um eleitor conservador mais ideológico. Ele foi lançado com Jailson Mesquita como vice e tenta ocupar o espaço da direita que não se reconhece nem no grupo de Arthur nem no bloco de Sampaio.
A campanha de Quartiero vem apostando em uma linguagem de confronto, com aceno a valores conservadores e crítica aos adversários. Até agora, porém, sua base pública de apoio partidário parece mais restrita ao próprio Democracia Cristã.
Faradilson Mesquita, por sua vez, foi lançado pelo Solidariedade em aliança com o PRD. Sua candidatura tenta dialogar com um eleitorado popular e com setores que se apresentam como alternativa aos grupos mais tradicionais da política estadual.
Embora tenha aparecido em movimentos próximos a Paulo César Quartiero, Faradilson tem buscado sustentar identidade própria, com discurso mais voltado aos municípios e ao cotidiano do eleitor. No quadro atual, no entanto, também surge como candidatura com estrutura menor diante dos dois blocos mais pesados da disputa.
O aspecto mais interessante dessa eleição é que ela não se resume a um mandato curto. Embora o vencedor vá governar por período menor do que em uma eleição ordinária, a campanha funciona como vitrine poderosa para 2026.
Quem sair fortalecido em junho leva para a próxima etapa uma rede de apoios já testada, um eleitorado mapeado e um discurso que passou pelo filtro das urnas. É por isso que nomes como Denarium, Teresa Surita e Romero Jucá não estão agindo como espectadores. Eles sabem que o pleito suplementar serve também como termômetro de força e capacidade de articulação.
Hoje, o cenário sugere uma disputa em que Arthur Henrique e Soldado Sampaio tentam polarizar o centro da eleição, cada um com padrinhos de peso e bases distintas.
Arthur carrega o apoio de Denarium e do bolsonarismo; Sampaio reúne o grupo mais amplo de partidos e lideranças locais, agora reforçado por Teresa e Jucá. Antônia Pedrosa, Quartiero e Faradilson ocupam faixas paralelas do eleitorado e podem influenciar o resultado ao fragmentar votos e redefinir o ambiente da campanha.
Se haverá ou não segundo turno, isso dependerá da capacidade de um desses campos transformar aliança em voto com rapidez. O certo, por enquanto, é que Roraima já vive uma eleição em que cada apoio anunciado reposiciona o jogo.





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