Ministra do TSE vota por cassação de governador e inelegibilidade de Denarium em julgamento sobre eleições de 2022
Voto reforça tese de abuso de poder e pode levar a nova eleição em Roraima
Decisão da Justiça Eleitoral pode mudar o cenário político em Roraima. Foto: Plenário do TSE durante sessão de julgamento Luiz Roberto/TSE/04-11-2025 A ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral, votou nesta terça-feira (28) pela cassação do mandato do governador de Roraima, Edilson Damião, e pela inelegibilidade até 2030 do ex-governador Antonio Denarium. A magistrada também defendeu a realização de uma nova eleição no estado, ao reconhecer práticas de abuso de poder político e econômico durante o pleito de 2022.
O voto de Estela Aranha se soma ao de outros ministros da Corte Eleitoral em um julgamento que ainda não foi concluído, mas que já apresenta maioria parcial em pontos-chave do processo. A análise gira em torno de ações que investigam supostas irregularidades cometidas pela chapa encabeçada por Denarium nas eleições estaduais.
Condutas consideradas ilegais
Em seu voto, a ministra apontou três práticas que, segundo ela, tiveram impacto direto no equilíbrio da disputa eleitoral. Entre as irregularidades reconhecidas estão a distribuição de benefícios sociais em ano eleitoral, ações governamentais com potencial de influência no voto e repasses financeiros sem critérios legais claros.
De acordo com a magistrada, houve distribuição de cestas básicas e cartões no valor de R$ 200 para cerca de 50 mil famílias por meio de um programa social. A iniciativa, apesar de ter caráter assistencial, foi considerada irregular por ter sido intensificada em período eleitoral, o que pode configurar uso da máquina pública em benefício político.
Outro ponto destacado foi a execução do programa habitacional que promoveu reformas de residências também durante o ano da eleição. Para Estela Aranha, a coincidência temporal entre as ações e o calendário eleitoral reforça a tese de uso indevido da estrutura governamental.
Além disso, a ministra considerou irregular a transferência emergencial de aproximadamente R$ 70 milhões a municípios afetados por fortes chuvas. Segundo o entendimento apresentado, os repasses não seguiram critérios legais adequados e beneficiaram, em sua maioria, cidades administradas por aliados políticos do então governador.
Divergências e convergências no julgamento
Apesar de reconhecer a gravidade das condutas, Estela Aranha divergiu parcialmente de outros ministros ao avaliar a responsabilidade direta do atual governador, Edilson Damião. Na época dos fatos, ele ocupava o cargo de secretário estadual de Infraestrutura.
A ministra entendeu que não há provas suficientes de que Damião tenha participado diretamente das irregularidades. Ainda assim, defendeu que ele seja incluído na cassação por ter sido beneficiado pelas ações enquanto integrante da chapa eleitoral.
Esse posicionamento difere, por exemplo, do voto do ministro Nunes Marques, que se manifestou pela absolvição de Damião, mas pela inelegibilidade de Denarium. Já outros ministros acompanharam a tese de cassação da chapa como um todo.

Até o momento, o placar parcial indica maioria pela cassação e pela inelegibilidade, mas ainda restam votos a serem proferidos, o que mantém o desfecho em aberto.
Acusações mais amplas no processo
As ações que resultaram no julgamento foram movidas logo após as eleições de 2022 pela coligação liderada pela ex-prefeita de Boa Vista, Teresa Surita. O grupo apontou uma série de supostas irregularidades cometidas pelos adversários durante o período eleitoral.
Entre as acusações, além das já reconhecidas pela ministra, estão o uso excessivo de publicidade institucional com promoção pessoal de agentes públicos, gastos elevados em comunicação governamental e utilização de eventos públicos para fins políticos.
Também foram mencionadas práticas como a nomeação de cabos eleitorais em período próximo à eleição, distribuição direcionada de benefícios sociais e suspeitas de desvio de recursos públicos para financiar a campanha.
Apesar da amplitude das denúncias, nem todas foram acolhidas no voto de Estela Aranha. A magistrada, por exemplo, considerou frágil a acusação relacionada à promoção pessoal por meio de publicidade institucional.
Possível impacto político
Caso a maioria dos ministros confirme o entendimento pela cassação, Roraima poderá enfrentar uma nova eleição para o governo estadual. Esse cenário traria impactos significativos no ambiente político local, além de gerar incertezas administrativas no curto prazo.
A eventual inelegibilidade de Antonio Denarium até 2030 também representa um fator relevante, uma vez que o ex-governador é uma das principais lideranças políticas do estado. A decisão pode redefinir o cenário eleitoral para os próximos anos.
Especialistas em direito eleitoral apontam que casos como esse reforçam a importância da fiscalização sobre o uso da máquina pública em períodos eleitorais. A legislação brasileira estabelece limites claros para evitar que ações governamentais sejam utilizadas como ferramenta de influência política.
Próximos passos do julgamento
O julgamento no Tribunal Superior Eleitoral ainda não foi finalizado e depende dos votos de ministros que não se manifestaram até o momento. Após a conclusão, ainda cabem recursos, o que pode prolongar o desfecho definitivo do caso.
Enquanto isso, o processo segue sendo acompanhado de perto por lideranças políticas, juristas e pela população de Roraima, dada a relevância das possíveis consequências.
A decisão final do TSE deverá estabelecer um precedente importante sobre o uso de programas sociais e ações governamentais em anos eleitorais, tema que frequentemente gera debates no cenário político nacional.
Debate sobre uso da máquina pública
O caso reacende discussões sobre os limites entre políticas públicas legítimas e práticas que podem configurar abuso de poder. Programas sociais são fundamentais para atender populações vulneráveis, mas seu uso em períodos eleitorais exige cuidados redobrados.
A legislação eleitoral brasileira busca justamente evitar que ações de governo sejam utilizadas para influenciar o eleitorado de forma indevida. Nesse contexto, o julgamento no TSE ganha relevância não apenas para Roraima, mas para todo o país.
Repercussão e expectativas
A repercussão do voto de Estela Aranha foi imediata nos meios políticos e jurídicos. Enquanto aliados dos investigados defendem a legalidade das ações, opositores apontam que houve desequilíbrio na disputa eleitoral.
A expectativa agora gira em torno dos próximos votos e da consolidação de uma maioria no tribunal. Independentemente do resultado, o caso já se destaca como um dos mais relevantes julgamentos eleitorais recentes envolvendo governadores no Brasil.
O voto da ministra Estela Aranha reforça a tendência de rigor na análise de condutas eleitorais envolvendo agentes públicos. Ao reconhecer práticas que podem ter influenciado o resultado das eleições, o TSE avança no debate sobre integridade eleitoral e igualdade de condições entre candidatos.
O desfecho do julgamento poderá redefinir o cenário político de Roraima e estabelecer parâmetros importantes para futuras eleições no país.





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