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Boa Vista,29/10/2026

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Sebastião do Nascimento

Anatomia do feminicídio: o silêncio mortal

A violência contra a mulher, os sinais de alerta ignorados e o silêncio que pode transformar ameaças e agressões em tragédias

Imagem gerada por inteligência artificial (IA).
Anatomia do feminicídio: o silêncio mortal Imagem ilustrativa retrata o medo e o sofrimento provocados pela violência contra a mulher, destacando a importância de reconhecer os sinais de abuso e romper o silêncio para prevenir o feminicídio.

A escalada de violência contra as mulheres no Brasil, que frequentemente culmina no feminicídio, é um fenômeno brutal e sistemático alimentado por diversos fatores. Esses episódios interligados evidenciam que essa prática de violência não constitui um mero conjunto de anomalias isoladas, mas sim uma assimetria de poder, fruto de um sintoma estrutural que vem comprometendo gravemente o tecido moral da sociedade. 


Nesse cenário, essa raiz estrutural ganha contornos práticos na omissão conjunta da sociedade e do Estado, deixando evidente que a violência contra a mulher vai além do agressor.


Muitos estudos apontam que o obstáculo central na proteção da mulher não é apenas a falta de recursos, mas sim falhas de planejamento e execução, visto que, por questões ideológicas, muitas prefeituras e governos estaduais deixam de implementar as ações de combate previstas na Política Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres. Isso traz como resultado uma rede de apoio fragilizada, que se manifesta na falha de acolhimentos; no atendimento policial precário; na falta de delegacias de defesa da mulher (ou no mau funcionamento delas); na deficiência de assistência jurídica; na insuficiência de vagas em abrigos; na falta de profissionais especializados; na ausência de debate sobre gênero; na carência de ações reflexivas para autores de violência; na escassez de políticas de autonomia econômica, dentre outras faltas.


Não raro, essas violações contínuas resultam em mais violências contra a mulher por parte do agressor. Um exemplo é Santa Catarina — estado que se projeta como seguro e socialmente estável, mas que ocupa uma posição particularmente grave no contexto de gênero. Dados registrados pelos canais de denúncia e centralizados pelo Observatório da Violência Contra a Mulher apontam que o estado apresentou mais de 9,5 mil casos de violência contra a mulher ao longo do ano corrente de 2026. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, Santa Catarina atingiu a marca de 1.733 ocorrências de ameaça para cada 100 mil mulheres, muito acima da média nacional de 720,9 por 100 mil. 


Infelizmente, esse cenário crítico não se restringe ao estado catarinense; reflete uma realidade compartilhada por todo o Brasil. Para além das ameaças e das tentativas de homicídio no âmbito nacional, o país registrou 848 vítimas de feminicídio entre janeiro e julho de 2026, segundo dados oficiais do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública.


O número mostra uma queda de 3,2% em relação ao mesmo período de 2025, que registrou 876 casos. No entanto, apesar dessa redução e das tentativas de intervenções do Estado, o índice continua alarmante, assemelhando-se a um cenário de epidemia. Isso indica que tais intervenções ainda são insuficientes, tornando indispensável uma atuação mais enérgica por parte do Ministério das Mulheres, bem como o engajamento proativo da sociedade, pois é dela que se origina parte do problema.


No contexto histórico, essa tendência ficou mais visível a partir de 2015, quando a então presidente Dilma Rousseff sancionou a Lei nº 13.104/2015, que passou a classificar o feminicídio como homicídio qualificado e crime hediondo. Desde então, as estatísticas sobre o tema ganharam novas métricas, registrando um real crescimento a partir de 2019.


Análises de entidades especializadas, como o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, apontam que o feminicídio ganhou força devido não apenas à negligência de políticas públicas, mas também ao discurso do próprio governo na época, que nutria posicionamentos misóginos e propagava hostilidade contra as mulheres, somado à flexibilização do armamento popular.


Tais atitudes, além de instigarem a violência de gênero, davam a impressão de “autorização” para o homem agir de forma mais hostil — inclusive no ambiente doméstico —, culminando, frequentemente, em feminicídios, que continuam em escalada como reflexo direto das atitudes insanas do governo passado.


Por exemplo, nos meios de comunicação e nos relatórios de segurança pública, há relatos frequentes de feminicídios praticados por elementos que compõem os quadros de segurança pública (como policiais militares, civis, penais e guardas municipais), um dos segmentos sociais fortemente impactados pelas más influencias promovidas pela extrema-direita. Isso expõe um desafio grave no país, especialmente pelo uso da arma de fogo de trabalho e pelas barreiras institucionais no enfrentamento à violência de gênero — são recorrentemente os episódios em que agentes cometem feminicídio contra companheiras (às vezes também policiais) e, em muitos casos, tiram a própria vida em seguida.


O ambiente corporativo das polícias muitas vezes gera receio nas vítimas (mesmo naquelas que também pertencem à segurança pública) em denunciar parceiros de farda por medo de retaliações, acobertamento ou impunidade.


Contudo, não é de hoje que vivemos em uma sociedade machista e misógina, na qual a dominação das mulheres pelos homens é vista como algo natural. Sabe-se que, além da igreja conservadora (que coloca a mulher em posição subalterna à do homem), existe uma robusta doutrina patriarcal arraigada na sociedade brasileira, pela qual o homem enxerga a mulher como de sua propriedade, contrariando a premissa de que nenhuma mulher deve estar sujeita à servidão, nem submetida a um relacionamento humilhante ou opressor. 


Portanto, em vez de ser julgada, a mulher deveria receber o total apoio da sociedade e do Estado. O agressor, por sua vez, é quem deve ser punido e compelido a se regenerar, tornando-se apto ao convívio social. Além disso, é fundamental romper paradigmas para eliminar a violência de gênero, evitando que se assista, em pleno século XXI, ao ato primitivo de um homem matar uma mulher pelo simples fato de ela ser mulher.


A omissão da sociedade e a negligência do Estado, é frequentemente o mecanismo pelo qual o agressor anuncia, avalia e consolida o controle sobre a mulher, indo até a violência letal. O feminicídio não surge repentinamente: ele pode ser precedido por uma cadeia de práticas de controle, intimidação, humilhação, perseguição, isolamento e restrição da autonomia.


Isso revela que as ameaças contra mulheres são uma forma de violência persistente que busca produzir medo e subordinação e que, quando não encontra um amparo da sociedade e uma resposta estatal rápida e eficaz, pode evoluir para formas ainda mais graves de violência. Essa discussão precisa ultrapassar a ideia tradicional de que o Estado é apenas o agente que prende o agressor depois do crime.


Também o silêncio da mulher agredida — motivado pelo medo, dependência econômica, isolamento ou pela dificuldade de acessar o Estado —, somado, à maioria das vezes, à omissão de familiares e amigos, torna bastante alarmante a ausência de denúncia.


É comum nos noticiários pós-crime os relatos de parentes e conhecidos confirmando o quanto a vítima sofria agressões constantes por parte do parceiro ou ex-parceiro. Por outro lado, esses depoimentos frequentemente revelam que a tragédia poderia ser evitada se o silêncio fosse rompido e o Estado fosse acionado, apesar das falhas institucionais. Mas é a partir da quebra desse silêncio, tanto da vítima quanto de familiares e outros, que se pode pressionar por uma resposta mais efetiva do Estado.


Portanto, combater a violência contra as mulheres exige mais do que aumentar penas após a consumação do crime. É preciso ir além das previsões da Lei Maria da Penha, a qual, isoladamente, não basta. Para isso, torna-se fundamental identificar riscos, integrar bancos de dados, garantir medidas protetivas e acompanhar seu cumprimento, além de assegurar abrigo, fortalecer a autonomia econômica e construir uma rede capaz de agir antes que a violência se torne irreversível.


O papel da sociedade organizada (entidades de classe, empresas, etc) e dos órgãos públicos deve ir muito além da escuta e do cumprimento de suas metas operacionais, ou seja, deve envolver uma responsabilidade social ativa. Por exemplo, quando uma organização assume o compromisso de educar seus colaboradores por meio de palestras, rodas de conversa e canais de denúncia anônimos, ela pode quebrar o ciclo do silêncio e identificar sinais de machismo estrutural e violência.


Essa intervenção preventiva na mentalidade de indivíduos com comportamentos de risco é uma estratégia vital para salvar vidas e promover a dignidade da mulher.


Concluindo, à medida que surgem na sociedade formas distintas de violência de gênero e enquanto houver uma visão distorcida do homem em relação à mulher e à posição que ela ocupa, com papéis assimétricos, haverá uma mulher morta a cada dia. Isso persistirá enquanto tivermos uma sociedade misógina, que admite que o homem deve ser o provedor financeiro e social da família.


Da mesma forma, o ciclo de perda continuará enquanto se perpetuar a crença de que o homem é um sujeito dotado de fortaleza e independência, enquanto a mulher for vista como frágil e dependente.


Ou, ainda, enquanto a sociedade permitir que o homem submeta a mulher ao seu capricho e tome decisões por ela, aceitando que ele a impeça de romper barreiras e de ir além do seu tempo, conforme sua vontade e sua capacidade de ação. Portanto, combater essa realidade exige desconstruir esses papéis sociais, assegurando à mulher a sua total autonomia e o direito de ser, entre tantas outras, uma mulher verdadeiramente livre e completa.


* Filósofo, escritor e consultor ambiental. Autor dos livros: Sonhador do Absoluto, Recado aos Humanos, Cem Contos Miúdos e À Sombra do Caimbé; membro editorial da revista científica: Biologia Geral e Experimental. 




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