Sebastião do Nascimento
Centenário de Milton Santos: patrono da geografia humana
Legado de Milton Santos segue influenciando o pensamento crítico e os estudos sobre espaço, sociedade e globalização
Milton Almeida dos Santos (1926–2001), mais conhecido como Milton Santos, foi um importante geógrafo brasileiro, considerado por muitos como o maior pensador da história da geografia humana no Brasil, sendo um dos maiores do mundo. Destacou-se por escrever e abordar temas como a epistemologia da geografia, globalização, espaço urbano, entre outros temas não menos importantes.
Como destacam muitos contemporâneos de Milton Santos, ele foi o maior de todos em se tratando da geografia, sobretudo no contexto da geografia urbana. Portanto, é preciso sempre reviver sua obra, revisitar suas reflexões e, diante de seu centenário, seria oportuno que as escolas e universidades brasileiras fizessem — além de simples eventos — ações de difusão, estudos e debates sobre o legado deste grande intelectual e pensador das causas sociais no mundo contemporâneo.
Divulgar a obra de Milton Santos é ressaltar a importância da geografia no campo das ciências sociais, humanas e biológicas, afinal o espaço geográfico é uma construção social e técnica, marcado, nos tempos modernos, pelas problemáticas do meio urbano e da globalização. Isso abrange os seres humanos em interação com o meio em que vivem (objetos/natureza), atuando e sofrendo ações no espaço e no tempo, produzindo um ambiente sociocultural.
Quanto à sua origem e formação, Milton Santos nasceu em Brotas de Macaúbas (Bahia) no dia 3 de maio de 1926. Formado em Direito pela Universidade Federal da Bahia em 1948, obteve o doutoramento em Geografia pela Université de Strasbourg (França) dez anos depois, tornando-se um dos maiores pensadores humanísticos que o Brasil já teve — tendo sido reconhecido nacional e internacionalmente.
Sobre a produção literária de Milton Santos, aqui é praticamente impossível citar todas suas obras, isto em função do grandioso arsenal literário de mais de quarenta livros e centenas de artigos; apontados como referências na área da geografia humana e ciências sociais como um todo, inclusive com várias obras traduzidas em diversos idiomas. Para o leitor que eventualmente se interesse pelo assunto, seguem alguns títulos: e.g., Por uma geografia nova (1978), Pobreza urbana (1978), O espaço dividido (1979), Espaço e método (1985), O espaço do cidadão (1987), A urbanização brasileira (1993), Técnica, espaço, tempo (1994), A natureza do espaço (1996), Por uma outra globalização (2000), O Brasil: território e sociedade no início do século XXI (2001), além de outros títulos.
Além da literatura científica, o geógrafo — de forte tendência jornalística, pautado na intensidade e objetividade — escreveu para uma série de jornais, p.ex., A Tarde (Salvador), de 1954 a 1964, sendo correspondente e diretor da Imprensa Oficial da Bahia (entre 1959-1961). Além disso, ocupou cargos importantes, como a chefia da Comissão de Planejamento Econômico da Bahia e influentes posições na administração pública estadual (1962-1964), colaborando com diversas comissões técnicas e relevantes estudos regionais.
Após o golpe militar de 1964, Milton foi preso e, posteriormente, exilou-se durante treze anos. Ao fim do exílio (que terminou em 1977), lecionou na UFRJ e na USP, tornando-se professor titular na USP em 1984 e depois professor emérito onde permaneceu até seu falecimento em 2001. O intelectual recebeu dezenas de títulos de Doutor Honoris Causa no Brasil (incluindo Universidades Federais da Bahia, do Ceará, de Pernambuco, do Rio de Janeiro, do Rio Grande do Sul, entre outras) e no exterior (incluindo Toulouse (França), Universidad de Barcelona (Espanha), Universidad de Buenos Aires.
Ainda durante o exílio atuou como professor/pesquisador em outras importantes instituições brasileiras e estrangeiras: Université de Paris, Universidade de Toronto, Universidade Nacional de Ingeniería de Lima, Universidad Central de Venezuela, Columbia University e na University of Dar es Salaam (Tanzânia) entre outras instituições.
Como geógrafo, também foi consultor das Nações Unidas, da UNESCO, da OIT e da OEA. Atuou ainda como consultor nacional para o desenvolvimento urbano, além de ter sido ativista nas questões do ensino no país. Prestou consultoria para governos externos, sobretudo em vários países africanos.
Foi primeiro latino-americano a receber o Prêmio Vautrin Lud (equivalente ao “Nobel da Geografia”), concedido no Festival Internacional de Geografia da França. Milton Santos foi um pioneiro e expoente máximo da geografia crítica no Brasil e, sobretudo, nos países subdesenvolvidos, denunciando desigualdades socioespaciais e analisando o “espaço dividido” entre circuitos do planejamento e economia urbana.
Milton Almeida dos Santos foi um profissional de grande envergadura em todas as áreas em que se propôs a estudar, com uma coerente abordagem social e analítica marcada com dados e teorias muito expressivas, indo além da mera descrição geográfica. Em relação a sua compreensão de mundo resume-se na seguinte frase: “O mundo é formado não apenas pelo que já existe, mas pelo que pode efetivamente existir.” Essa autêntica citação, reflete na visão de um futuro possível, construído pela ação humana e a possibilidade de uma outra globalização. Ela transmite a ideia do geógrafo de que o futuro não está determinado e que a ação humana (solidária e consciente) pode transformar a globalização perversa atual em uma alternativa mais justa. Milton Santos faleceu em São Paulo, no dia 24 de junho de 2001, aos 75 anos.
*Filósofo, escritor e consultor ambiental. Membro editorial da revista “Biologia Geral e Experimental”. Autor dos livros “Cem contos miúdos” e “À sombra do caimbé” (no prelo).




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