Sebastião do Nascimento
A lógica do racismo e do ódio de classe na sociedade brasileira
Entenda como racismo estrutural, desigualdade econômica e preconceito de classe se entrelaçam e influenciam a dinâmica social e política no Brasil.
A fotografia captura um contraste social profundo: de um lado, uma mulher em um condomínio fechado e, do outro, um homem negro aguardando o transporte público. No centro, o muro traz a frase pichada: "A classe é o muro, o racismo é o tijolo".O racismo e o ódio de classe na sociedade brasileira são fenômenos profundamente interligados, estruturando relações sociais, econômicas e políticas herdadas de um longo período escravagista. Embora muitas vezes manifestados de forma velada, esses preconceitos emergem em interações cotidianas, através de discursos opressores e disparidades estruturais, onde a população negra e pobre é desproporcionalmente afetada.
Tanto o racismo quanto o ódio racial ou discurso de ódio formam um sistema de crenças que hierarquiza seres humanos com base em características físicas, como cor da pele, origem étnica ou nacionalidade. Ele parte da falsa premissa de superioridade e dominação de um grupo sobre outro, resultando numa agressão violenta de humilhação, exclusão, discriminação, negação de direitos e incitação à violência contra indivíduos ou grupos vulneráveis.
No tocante à sociedade brasileira, estudos indicam que, embora grande parte da população reconheça o racismo como problema, há resistência em admitir comportamentos racistas, a qual se manifesta majoritariamente por meio da violência verbal, tratamento desigual, agressões físicas, etc, tendo as pessoas negras como maiores vítimas de assédio moral e sexual, além de barreiras na ascensão profissional e social.
O pior de tudo é que, ainda que presente em muitos setores da sociedade, é no sistema educacional/escola que sobressaem as primeiras experiências de racismo, com relatos de xingamentos, apelidos pejorativos, exclusão social, além da resistência em admitir comportamentos racistas ou aceitar ações afirmativas, p. ex., o sistema de cotas para ingresso do estudante, sobretudo nas universidades.
Ao lado disso, o racismo estrutural configura-se prevalescente no sistema de justiça social. Dados do IBGE e outros órgãos confirmam que a população negra é a maioria entre os desempregados, nas estatísticas de armas de fogo e no sistema prisional. Pessoas negras são frequentemente vistas como suspeita, resultando em maior vulnerabilidade à violência e abordagens policiais agressivas.
A presença de pessoas negras e pobres em ambientes de maior prestígio social como shoppings, lojas e restaurantes de luxo, universidades de elite, frequentemente gera reações hostis, tratamentos diferenciados ou a tentativa de exclusão, evidenciando o ódio de classe disfarçado de “segurança”. Isso traz a percepção de que a “classe trabalhadora” ou pessoas periféricas não devem ocupar determinados espaços, inclusive no universo das redes sociais, onde o racismo e discurso de ódio frequentemente desumanizam a população negra.
Além disso, no Brasil, não dá para dissociar o racismo da aporofobia (ódio aos pobres). Essa fusão traz um volume estruturante de opressão que atinge também a pessoa branca pobre ou mesmo o branco que defende o bem-estar de grupos vulneráveis, evidenciando um “racismo de classe”. Estudos apontam que a união do racismo com o desprezo por pessoas de baixa renda (seja preta ou branca), resulta em brutal violência. Essa violação é direcionada principalmente a quem ocupa espaços de poder menores, revelando um elitismo da sociedade pós-escravocrata — sendo importante salientar que, quando negros alcançam status social mais elevado, às vezes passam a reproduzir esse racismo, naturalizando a opressão sobre si mesmos.
Na obra “A Elite do Atraso” de Jessé Souza, é frequentemente citada para explicar como a elite brasileira perpetua a exclusão através de um “racismo de classe”, moldando a percepção elitista sobre os pobres. Diante dessa paixão escravocrata á brasileira, o racismo no Brasil é a força matriz que estrutura as relações de poder, frequentemente se sobrepondo à luta de classe para perpetuar privilégios brancos e elitistas, os quais estão enraizados nas fundações sociais, econômicas, políticas e culturais de nossa sociedade.
Não menos estruturante é a aversão, preconceito ou ódio reproduzidos no âmbito interno de um país, sobretudo em relação ao povo do Norte e Nordeste do Brasil. No contexto histórico, esse preconceito contra os nordestinos remonta aos anos da metade para o final do século passado, quando muitos nordestinos, em busca de melhores condições de vida, migraram para a região sudeste do país.
Na visão do historiador Durval Muniz, professor da Universidade Federal da Paraíba, este preconceito tem fundo racial e se apoia no fato de parte das populações do Sul e do Sudeste se achar branca, descendente de europeu que nutre uma imagem estereotipada do nordestino como alguém que “vive da exploração do restante do Brasil” (associado a atraso, dependência de auxílios e baixa vontade própria, contrapondo o “progresso” do Sul com o suposto “atraso” do Nordeste.
Essa aversão existe há anos e é propagada em diversas situações cotidianas que se exacerbam em épocas de crises. Como disse Durval Muniz, esse preconceito é bem antigo e se reforça em momentos de tensão e conflito, como as eleições em que as diferenças ficam mais visíveis. Contudo, esse tipo de pensamento não é algo isolado, embora muita gente pense assim. O que parece ser uma coisa isolada deixa de ser quando passa a ser disseminada, repetidas vezes, por uma massa de pessoas que descarrega um discurso disfarçado de opinião, reforçando estigmas antigos sobre regiões e pessoas, reduzindo-as a estereótipos: atraso, pobreza, padrão racial, falta de cultura, dependência econômica e política, etc.
Embora pareça recente, mas essa carga de preconceito e discurso de ódio sobre o Nordeste não é de hoje. Ela se intensifica desde as grandes migrações nordestinas para o Sudeste do país, principalmente ao longo do século XX, quando milhares de pessoas deixaram suas terras em busca de trabalho. Muitos artistas (cantores, atrizes, atores, etc) nordestinos que enfrentaram preconceito e violências raciais ao se destacarem nos grandes centros do Rio e São Paulo, onde tiveram suas expressões artísticas, sua aparência e seu sotaque frequentemente desqualificados. Ainda assim, permaneceu a resistência moral, a brasilidade e, sobretudo, a capacidade de criar um sentimento de unidade e pertencimento, oferecendo aos migrantes nordestinos, um espaço de reconhecimento, de memória e identidade.
Assim, quando alguém associa o Nordeste à ignorância, a falta de cultura ou a precariedade moral, está manifestando um preconceito regional que tem forte componente racial, visto que o Nordeste concentra populações majoritariamente negras, indígenas e mestiças, historicamente exploradas desde o período colonial. Mesmo no discurso político, principalmente de partidários da direita ou extrema direita, observa-se retóricas depreciadoras ou, quando não, muito ofensivas, tomando a região — Nordeste do Brasil — como carente, atrasada e dependente das regiões mais prósperas do sul do país. É exatamente por essa razão que esse tipo de fala se reproduz com tanta facilidade, porque ela edita o preconceito com naturalidade, sem constrangimento, como se fosse realmente uma constatação óbvia da realidade.
Diante da materialidade contextual, falar do Nordeste como sinônimo de atraso é uma inversão histórica brutal. Essa região não ficou para trás, ela foi exaurida pelo poder político e econômico e administrativo do Brasil colonial. A exemplo da Bahia – tendo Salvador como a primeira capital do país por mais de dois séculos – sua economia gerada na produção de açúcar, tabaco e o início da expansão cacaueira significou uma concentração extrema de riqueza nas mãos da coroa portuguesa e de uma elite branca, tendo a intensa mão-de-obra escravizada e a violência sistemática como base da produção. Apesar de tudo, toda a riqueza gerada no Nordeste sofreu um processo de exaustão e transferida para a região Sudeste do Brasil, deixando o Nordeste com uma infraestrutura baseada na concentração de terras e imensa pobreza social.
O mesmo exemplo vale para outras regiões do Nordeste, incluindo o Maranhão, que teve um papel estratégico no projeto colonial português, quando a região foi integrada ao chamado estado do Grão Pará e Maranhão, pensado como uma colônia de exploração direta, com sua economia estruturada sobretudo no algodão, altamente demandado pela Europa durante a Revolução Industrial. E o que isso significou para o país? Na prática se deu a expansão violenta da escravidão africana, a expulsão e extermínio de povos indígenas, a produção voltada quase exclusivamente para a exportação e a ausência de investimento em infraestrutura e desenvolvimento.
Enquanto o Nordeste era explorado até o limite, o Brasil do século XIX e início do século XX adotou políticas explícitas de incentivo ao branqueamento da população e à imigração europeia, promovendo a distribuição de terras, crédito estatal, infraestrutura, projetos de urbanização e industrialização para esses imigrantes europeus. Isso mostra o quanto a política imigratória brasileira esteve historicamente vinculada a um projeto racial de nação. Enquanto isso, no Nordeste, a população escravizada, recém liberta, foi abandonada à própria sorte, sem acesso à terra, sem escola, sem políticas públicas de inclusão e submetida a um sistema de poder marcado pelo coronelismo. Esse modelo concentrava terras, recursos e decisões políticas nas mãos de poucos, mantendo a maioria da população em relações de dependência, clientelismo e exclusão.
Assim, o projeto de imigração no Brasil não foi neutro, nem apenas econômico. Ele fez parte de uma política associada ao racismo científico — uma pseudociência que fornece base teórica para aplicação da eugenia. Na esteira desse processo, cresceu entre intelectuais e as elites brasileiras o apoio a ideias eugenistas para o branqueamento da população. Inclusive no início do século XX, havia quem defendesse abertamente que o Brasil caminhava para um futuro mais branco, chegando a sugerir o desaparecimento da população negra.
Portanto, quando a pessoa destila racismo e ódio de classe, ela está reproduzindo uma lógica preconceituosa secular: a ideia de eugenia. Autores como Nina Rodrigues e Renato Kehl (figuras centrais do racismo científico no Brasil), quando se utilizavam de teorias raciais europeias para justificar a suposta “inferioridade” da raça negra e a “superioridade” da raça branca, defendiam explicitamente que negros e mestiços eram biologicamente inferiores e incapazes de serem civilizados. Embora essa ideia venha sendo fortemente refutada pela comunidade científica mundial, ela sobreviveu no senso comum, disfarçada de opinião ou análise crítica, sendo uma das razões para que a cada dia a violência do racismo e do ódio de classe esteja tão evidente na sociedade brasileira contemporânea.
Sobre o autor: Filósofo, escritor e consultor ambiental. Membro editorial da revista “Biologia Geral e Experimental”. Autor dos livros “Cem contos miúdos” e “À sombra do caimbé” (no prelo)




COMENTÁRIOS