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Boa Vista,05/08/2026

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Multiplica Amazônia forma lideranças locais para ampliar restauração florestal no Norte

Programa atua no Pará, Rondônia e Acre e combina conhecimento científico, saberes indígenas e formação técnica para recuperar áreas degradadas


Multiplica Amazônia forma lideranças locais para ampliar restauração florestal no Norte Multiplica Amazônia forma lideranças locais para disseminar técnicas de restauração florestal e valorizar conhecimentos tradicionais nos territórios.

A ampliação da restauração florestal na Amazônia depende não apenas de financiamento e tecnologia, mas também da formação de pessoas capazes de conduzir esse trabalho nos próprios territórios.

Com essa proposta, o programa Multiplica Amazônia capacita agricultores familiares, povos indígenas, extrativistas, produtores rurais, técnicos e servidores públicos para atuar na recuperação de áreas degradadas e compartilhar o conhecimento adquirido em suas comunidades.

A iniciativa foi apresentada durante a VI Conferência Brasileira de Restauração Ecológica, a SOBRE 2026, realizada em Brasília. O programa atua inicialmente no Pará, em Rondônia e no Acre, com atividades presenciais e uma plataforma virtual de aprendizagem. A estratégia é formar multiplicadores que permaneçam nos territórios e contribuam para ampliar a capacidade técnica local.

Realizado pela Aliança pela Restauração na Amazônia, pela Sociedade Brasileira de Restauração Ecológica e pela The Nature Conservancy Brasil, com recursos do Bezos Earth Fund, o projeto tem duração prevista até 2028. A ação integra os esforços relacionados ao compromisso brasileiro de restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030.

O trabalho é direcionado a áreas consideradas estratégicas por estudos da Articulação de Inteligência Estratégica Territorial para a Restauração na Amazônia, a ATERA. O mapeamento orienta a identificação de regiões onde a recuperação ambiental pode contribuir para a conservação da biodiversidade, a adaptação às mudanças climáticas e o fortalecimento das comunidades locais.

Mais do que oferecer cursos isolados, o Multiplica Amazônia pretende criar uma rede de pessoas capacitadas para ensinar técnicas de restauração, organizar iniciativas comunitárias e aproximar conhecimentos científicos das práticas desenvolvidas por quem vive na floresta.

A formação aborda temas como Código Florestal, sistemas agroflorestais, semeadura direta, plantio de mudas, regeneração natural assistida, manejo integrado do fogo, créditos de carbono, empreendedorismo e cadeias produtivas ligadas à restauração.

O conteúdo combina aulas, atividades práticas e troca de experiências. A plataforma digital permite que os participantes revisem os temas e mantenham contato com outros integrantes, enquanto os encontros presenciais aproximam a formação das características de cada território.

O Museu Paraense Emílio Goeldi e a Universidade Federal Rural da Amazônia integram o Comitê Pedagógico do projeto. A participação das instituições busca fortalecer a ligação entre pesquisa científica e aplicação prática, evitando que o conteúdo fique restrito ao ambiente acadêmico.

Conhecimentos indígenas orientam metodologia

Um dos principais diferenciais do programa é a construção de metodologias específicas para povos indígenas. O trabalho é desenvolvido em parceria com a Fundação Nacional dos Povos Indígenas, a Funai, e com as próprias comunidades.

A proposta considera que a restauração ecológica não se limita ao plantio de árvores. Para os povos indígenas, a recuperação dos ecossistemas está ligada à preservação dos modos de vida, da espiritualidade, da alimentação, dos conhecimentos ancestrais e da relação histórica com a terra.

Por isso, as atividades são adaptadas às realidades culturais e territoriais. Em vez de apresentar modelos prontos, o programa procura incorporar práticas já utilizadas pelas comunidades e reconhecer o papel desses conhecimentos na conservação da floresta.

O tema ganhou espaço na oficina “Vozes da Restauração – Restaurar é Reencantar a Terra: Espiritualidade, ancestralidade e experiências indígenas na restauração dos territórios”, realizada no dia 29 durante a conferência, em parceria com o Encontro Internacional de Restauração Ecológica, a Funai e a TNC Brasil.

A atividade reuniu lideranças indígenas, pesquisadores, especialistas e representantes de organizações da sociedade civil. Participaram nomes como Nélida Tainá Terena, Tainan Kumaruara, Mick Aimirim, Jorge Guajajara e Braulina Baniwa, além de integrantes do EIRE, EcoUniversidade, Aliança pela Restauração na Amazônia, IBEL, PrevFogo/Ibama e Dispersar.

As discussões foram organizadas em cinco eixos: educação ambiental; sementes e viveiros comunitários; manejo integrado do fogo e brigadas indígenas; reflorestamento com espécies nativas em áreas de reintegração de posse; e ações relacionadas à agroecologia, polinização, quintais produtivos, hortas medicinais e bioeconomia.

A divisão dos temas mostrou que a restauração envolve diferentes etapas. É necessário produzir sementes e mudas, recuperar o solo, definir técnicas adequadas, prevenir incêndios e criar alternativas econômicas que permitam às comunidades manter as áreas restauradas.

Os viveiros comunitários, por exemplo, podem fornecer espécies nativas e gerar renda. Já os quintais produtivos e os sistemas agroflorestais ajudam a combinar recuperação ambiental com produção de alimentos.

O manejo integrado do fogo também aparece como tema central. Em muitos territórios, as comunidades acumulam conhecimentos sobre o uso controlado das chamas, a prevenção de grandes incêndios e a identificação das épocas de maior risco.

Ao incorporar essas experiências, o programa procura reduzir a distância entre as políticas de restauração e a realidade encontrada no campo. A intenção é construir estratégias que possam ser aplicadas e mantidas pelas próprias comunidades.

A oficina também serviu para identificar necessidades, oportunidades e iniciativas já existentes. As informações poderão orientar as próximas etapas do Multiplica Amazônia e ajudar na elaboração de novas ações formativas.

Formação busca permanecer nos territórios

A falta de profissionais especializados é apontada como uma das principais dificuldades para ampliar a restauração na Amazônia. Mesmo quando existem recursos financeiros e áreas identificadas, projetos podem enfrentar problemas por falta de equipes locais preparadas para planejar, executar e acompanhar o trabalho.

O Multiplica Amazônia tenta reduzir essa lacuna por meio da formação de multiplicadores. Depois de capacitados, os participantes poderão compartilhar técnicas, apoiar projetos e orientar outras pessoas em suas comunidades.

Essa abordagem busca evitar que o conhecimento fique concentrado em consultorias, universidades ou organizações externas. Ao formar pessoas que vivem e trabalham nos territórios, o programa pretende aumentar a continuidade das iniciativas.

A restauração exige acompanhamento de longo prazo. O plantio de mudas é apenas uma etapa e precisa ser seguido por manutenção, controle de espécies invasoras, proteção contra o fogo e avaliação da sobrevivência das plantas.

Em algumas áreas, a regeneração natural assistida pode ser mais adequada do que o plantio completo. Nesse método, as equipes removem barreiras e protegem a vegetação que já começa a se recuperar.

A semeadura direta é outra técnica abordada. Ela consiste na distribuição de sementes na área degradada e pode reduzir custos, dependendo das características do solo e das espécies utilizadas.

Nos sistemas agroflorestais, árvores nativas são combinadas com cultivos agrícolas. A prática permite recuperar funções ecológicas e, ao mesmo tempo, manter produção e renda para agricultores familiares.

O conteúdo sobre empreendedorismo e cadeias produtivas procura mostrar que a restauração também pode gerar oportunidades econômicas. A coleta de sementes, a produção de mudas, o manejo de produtos florestais e a prestação de serviços ambientais podem criar novas atividades.

Já os créditos de carbono são apresentados dentro do debate sobre financiamento. Projetos de restauração podem contribuir para a captura de carbono da atmosfera, mas exigem regras, acompanhamento técnico e mecanismos capazes de garantir benefícios aos territórios.

A presença de servidores públicos entre os participantes também facilita a integração entre o conhecimento técnico e as políticas ambientais. Esses profissionais podem utilizar a formação na elaboração de programas, fiscalização, assistência técnica e planejamento territorial.

A participação de produtores rurais amplia o diálogo com áreas privadas. A recuperação de vegetação pode estar relacionada ao cumprimento do Código Florestal, à proteção de nascentes e à recomposição de áreas de preservação permanente.

A expectativa é que o programa fortaleça conexões entre comunidades, organizações, universidades, governos e setor produtivo. O desafio é transformar a restauração em uma agenda permanente, e não apenas em projetos pontuais.

Meta nacional exige atuação em larga escala

O compromisso brasileiro de recuperar 12 milhões de hectares até 2030 exige atuação em diferentes biomas e grande capacidade técnica. Na Amazônia, a dimensão territorial e a diversidade de ecossistemas aumentam a complexidade.

As áreas degradadas possuem características distintas. Algumas foram afetadas por desmatamento recente, enquanto outras passaram por queimadas repetidas, exploração madeireira, mineração ou uso agropecuário prolongado.

Cada situação exige diagnóstico e métodos específicos. Uma técnica que funciona em determinada área pode não apresentar o mesmo resultado em outra.

Por isso, a formação local é considerada estratégica. Pessoas que conhecem o território podem identificar espécies, períodos de chuva, disponibilidade de sementes, riscos de incêndio e condições de acesso.

A restauração também precisa respeitar a diversidade social da Amazônia. Povos indígenas, comunidades tradicionais, agricultores familiares e grandes produtores possuem relações diferentes com a terra e devem participar da elaboração das soluções.

A Aliança pela Restauração na Amazônia atua desde 2017 como articulação entre instituições e setores envolvidos no tema. A rede reúne cerca de 160 membros e trabalha para integrar conservação, recuperação ambiental e benefícios socioeconômicos.

A Sociedade Brasileira de Restauração Ecológica, fundada em 2014, reúne mais de 500 associados e trabalha na disseminação de conhecimento científico, práticas de restauração e apoio a políticas públicas.

A TNC Brasil atua há 35 anos no país, com projetos na Amazônia, no Cerrado e na Mata Atlântica. A organização desenvolve ações voltadas à conservação, ao clima e à biodiversidade em parceria com comunidades, governos e empresas.

Com o Multiplica Amazônia, as instituições procuram transformar conhecimento em capacidade prática de restauração. A meta é fazer com que os participantes não sejam apenas alunos, mas referências em seus territórios.

O programa seguirá até 2028, com novas etapas de formação e acompanhamento. A expectativa é que as experiências acumuladas no Pará, em Rondônia e no Acre possam contribuir para iniciativas semelhantes em outras áreas da Amazônia.




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