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Boa Vista,05/08/2026

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IPAM lança guia inédito para combater incêndios nas florestas úmidas da Amazônia

Publicação reúne conhecimentos de brigadistas, pesquisadores e órgãos ambientais para orientar operações em áreas antes consideradas pouco vulneráveis ao fogo


IPAM lança guia inédito para combater incêndios nas florestas úmidas da Amazônia Livreto reúne técnicas de combate aos incêndios em florestas ombrófilas densas e conhecimentos construídos por brigadistas e pesquisadores.

O Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, o IPAM, lançou uma publicação inédita com orientações para o combate a incêndios em florestas tropicais úmidas. Produzido em parceria com as universidades de Oxford e Lancaster e a Rede Amazônia Sustentável, o livreto sistematiza técnicas usadas por brigadistas e adapta os procedimentos às características das florestas ombrófilas densas, vegetação predominante no bioma amazônico.

Intitulado Combate aos Incêndios Florestais da Amazônia: Florestas Ombrófilas Densas, o material foi elaborado diante do avanço do fogo sobre áreas que historicamente apresentavam elevada umidade e menor suscetibilidade às chamas. Com secas extremas mais frequentes e longos períodos de estiagem, essas florestas passaram a exigir estratégias próprias de prevenção, monitoramento e combate.

O livreto é o primeiro volume de uma coleção composta por quatro publicações. Os próximos documentos abordarão florestas ombrófilas abertas, florestas alagadas e florestas degradadas. A previsão é que todos sejam divulgados até o fim de 2026.

Cerca de 60 autores participaram do processo de construção do conteúdo. O grupo reúne brigadistas voluntários e institucionais, pesquisadores e representantes do PrevFogo, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, o Ibama, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, o ICMBio, e do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.

A proposta foi transformar experiências adquiridas diretamente nas operações em orientações acessíveis para as equipes que atuam na linha de frente. O material apresenta ferramentas, procedimentos de segurança, formas de reconhecimento do terreno e métodos para impedir o avanço das chamas.

Segundo a diretora de Ciência do IPAM, Ane Alencar, o aumento dos eventos climáticos extremos tornou necessária a criação de referências específicas para as florestas tropicais.

“Essas florestas não deveriam estar queimando. Mas, diante das mudanças climáticas e dos eventos extremos, tornou-se fundamental construir conhecimento específico sobre como combater incêndios nesse ambiente. O livreto parte desse pressuposto e constrói essas técnicas de baixo para cima, incorporando a experiência de brigadistas, pesquisadores e gestores”, afirmou.

Técnicas adaptadas ao ambiente amazônico

As florestas ombrófilas densas são caracterizadas por árvores altas, copas fechadas, elevada umidade e grande diversidade de espécies. Por muito tempo, essas condições dificultaram a entrada e a propagação das chamas.

O cenário mudou com a intensificação das secas, o aumento das temperaturas e a degradação de determinadas áreas. Quando a vegetação perde umidade, folhas, galhos, troncos e raízes acumulados no chão passam a alimentar o fogo.

Diferentemente dos incêndios em áreas abertas, as chamas dentro da floresta podem avançar de forma lenta e pouco visível. O fogo se desloca próximo ao solo, alcança raízes e entra em árvores ocas, permanecendo ativo mesmo depois de aparentemente controlado.

Por essa razão, uma das orientações apresentadas no livreto é a identificação de troncos em brasa e árvores que possam provocar a reignição. Esses pontos precisam ser monitorados até que a equipe confirme que não existe mais risco de retomada do incêndio.

A publicação destaca a construção de linhas de defesa como uma das principais técnicas de contenção. O trabalho consiste na retirada de materiais inflamáveis do solo para formar uma faixa capaz de interromper o caminho das chamas.

Folhas secas, galhos, raízes e troncos são removidos ao longo dessa linha. A extensão e a largura da faixa dependem das condições do terreno, da intensidade do fogo, da direção do vento e da quantidade de combustível presente na área.

Nas florestas densas, o serviço costuma exigir atuação manual e deslocamentos por locais de difícil acesso. As equipes também enfrentam riscos relacionados à queda de árvores, exposição prolongada à fumaça e presença de materiais incandescentes escondidos sob a vegetação.

O planejamento da operação deve incluir rotas de fuga, pontos de apoio, disponibilidade de água e comunicação entre os integrantes. A leitura do comportamento do fogo é fundamental para evitar que brigadistas sejam cercados pelas chamas ou atingidos por estruturas enfraquecidas.

Outro diferencial do material é a valorização do conhecimento das comunidades. Moradores e povos que conhecem o território podem indicar caminhos, rios, igarapés, áreas prioritárias e locais que oferecem maior risco durante o deslocamento.

Essas informações também ajudam a identificar regiões afetadas por garimpo, mineração ou conflitos fundiários. Em determinadas situações, esses fatores interferem diretamente na segurança e na capacidade de atuação das equipes.

O brigadista voluntário João Romano, da Brigada de Incêndio Florestal de Alter do Chão, afirmou que a publicação preenche uma lacuna na formação de profissionais que atuam na Amazônia.

“A gente não tinha nenhuma publicação que tratasse do combate a incêndios na Amazônia. Para nós, é muito interessante a gente olhar e colocar isso nesse livreto, mostrando as técnicas, as ferramentas que são utilizadas e olhando dessa perspectiva dos diferentes tipos de florestas que temos na Amazônia”, declarou.

A divisão da coleção em quatro volumes considera que a Amazônia não possui uma única formação florestal. Áreas densas, abertas, alagadas ou degradadas apresentam comportamentos distintos diante do fogo e exigem respostas diferentes.

Em florestas degradadas, por exemplo, a entrada de luz e vento costuma ressecar o ambiente mais rapidamente. Já nas áreas alagadas, o risco varia de acordo com o nível dos rios e a duração do período seco.

Ao separar os conteúdos, os pesquisadores buscam evitar orientações genéricas e oferecer referências mais próximas das condições encontradas em cada região.

Queda da área queimada não encerra o alerta

O livreto foi apresentado no mesmo dia da divulgação do Relatório Anual do Fogo no Brasil. O levantamento apontou redução de 58% na área queimada no país em 2025, na comparação com o ano anterior.

Foram atingidos 12,7 milhões de hectares, o menor resultado desde 2018 e uma área 31% abaixo da média histórica anual.

Na Amazônia, 3,1 milhões de hectares foram queimados. O número representa uma queda de 80% em relação a 2024 e a menor extensão registrada nos 41 anos da série histórica.

A redução ocorreu após o retorno das chuvas regulares, que aumentaram a umidade da vegetação depois das secas extremas associadas ao El Niño em 2023 e 2024.

Apesar da melhora, pesquisadores alertam que os riscos permanecem. Durante períodos mais úmidos, o crescimento da vegetação pode aumentar a quantidade de biomassa disponível. Em uma nova estiagem, esse material pode se tornar combustível, principalmente quando combinado ao uso descontrolado do fogo.

A repetição dos incêndios também enfraquece a floresta. Árvores atingidas podem morrer, abrir clareiras e permitir maior entrada de luz e vento, tornando o ambiente mais seco e vulnerável.

Esse processo cria um ciclo de degradação. A floresta afetada por um primeiro incêndio passa a apresentar condições mais favoráveis para novas ocorrências, com impactos progressivamente maiores sobre a vegetação e a fauna.

Além das perdas ambientais, a fumaça compromete a qualidade do ar e pode agravar doenças respiratórias. Crianças, idosos e pessoas com problemas crônicos de saúde estão entre os grupos mais vulneráveis.

Os incêndios também afetam comunidades, áreas produtivas, estradas e estruturas instaladas no entorno das florestas. O controle tardio pode exigir operações longas, maior número de profissionais e custos elevados.

Por isso, o material defende que o combate direto seja acompanhado de prevenção, monitoramento e formação permanente das brigadas.

A capacitação precisa envolver o uso correto dos equipamentos, o reconhecimento dos riscos, a leitura do terreno e a compreensão sobre o comportamento das chamas em cada tipo de vegetação.

A existência de um manual específico pode reduzir improvisações e facilitar a organização de treinamentos. O conteúdo também serve como referência para gestores públicos, pesquisadores, unidades de conservação e organizações comunitárias.

O IPAM espera que o livreto seja utilizado por brigadas voluntárias e institucionais em diferentes áreas da Amazônia. A publicação digital permite ampliar o acesso e incorporar o material a cursos e ações de preparação para os períodos críticos.

Os volumes seguintes deverão aprofundar as particularidades das demais formações florestais. Com isso, a coleção pretende reunir um conjunto amplo de conhecimentos para melhorar a segurança das equipes e aumentar a eficiência das operações.

A iniciativa parte de uma realidade que se tornou mais evidente nos últimos anos: mesmo as florestas mais úmidas já não podem ser consideradas imunes ao fogo.

O livreto procura responder a essa transformação com orientações construídas a partir da ciência, da experiência prática e do conhecimento de quem vive e trabalha na floresta.




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