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Boa Vista,14/10/2026

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Sebastião do Nascimento

E assim caminha a sociedade brasileira

Desigualdade, intolerância e crise de valores expõem as contradições sociais e políticas do Brasil contemporâneo

Imagem gerada por inteligência artificial (IA).
E assim caminha a sociedade brasileira Imagem ilustrativa representa as contradições da sociedade brasileira, marcada pela desigualdade social, pela concentração de riqueza, pela desinformação e pelos desafios para construir um país mais justo e democrático.

Muitos pensadores universais que tratam da história da humanidade são unânimes em dizer que, desde os primórdios, a vida em sociedade foi marcada por conflitos e contradições. Devido à própria incompreensão humana, nos dias atuais, esses fatores estão cada vez mais evidentes, à medida que assistimos atônitos aos elevados graus de discórdia e violência na sociedade contemporânea. Esse cenário valida o pensamento do filósofo Delmo Mattos ao destacar que, a todo instante, somos lembrados de que a indelicadeza e a brutalidade sempre fizeram parte da condição humana.

Esses fatores históricos contribuíram, ao longo do tempo, para que a humanidade atingisse níveis intensos de desgaste e esfacelamento, sobretudo a partir do momento em que se pensou em dividir a sociedade em categorias ou classes sociais, nas quais os grupos humanos são tratados diferentemente entre si e ocupam lugares distintos na estrutura social, contrariando o próprio princípio de igualdade do homem. Sim, a humanidade começou a sucumbir no momento em que esse processo de heterogeneização social se sobrepôs ao estado de paridade, promovendo um agressivo estado de segregação.

Trazendo isso para a sociedade brasileira, percebemos que a estratificação social no país é profundamente desigual. Segundo estudos da FGV Social baseados em dados do IBGE, a chamada classe média típica (Classe C) concentra a maior parcela da população, enquanto uma parte expressiva dos brasileiros ainda se encontra nas faixas de baixa renda (Classes D e E). Por outro lado, o topo da pirâmide (Classes A e B) evidencia a extrema disparidade na distribuição da renda nacional, visto que, isoladamente, a classe A detém a maior parte das riquezas do país.

Dentro dessa engrenagem social, a classe média brasileira constitui a casta com o maior potencial de coerção. Sempre insatisfeita com a ordem estabelecida pelo paradigma social — exceto quando este lhe convém —, essa camada hostiliza as categorias pobres e bajula as classes altas. Em outras palavras, funciona como a principal potência motriz que impulsiona as mazelas no país. Essa classe social, quando exaltada, deseja tão somente ampliar sua carga de benefícios muitas vezes impróprios, utilizando todos os meios possíveis para se apropriar de interesses existencialmente corrompidos.

Portanto, a classe média é uma categoria amorfa que sofre de profunda oligofrenia — déficit de inteligência composto pela tríade: debilidade, imbecilidade e idiotia. Dessa forma, constitui-se uma massa humana débil, imbecil e idiota que forma a força destrutiva da sociedade, orientada a resultados imediatos e individuais, sendo incapaz de pensar no futuro e no coletivo.

Como diz a filósofa Marilena Chauí, “a classe média é o que tem de reacionário, conservador, petulante e arrogante. Ela é uma abominação política, porque ela é fascista, uma abominação ética porque ela é violenta, e uma abominação cognitiva, porque ela é ignorante”.

De forma alienante, essa camada social alimenta o desejo sôfrego por marcas e outros produtos supérfluos. Quando impulsionada pelo poder de compra, ela se torna engrenagem central no complexo mundo do consumismo. Por estar em posição intermediária, é o grupo que mais contribui para aprofundar o abismo da desigualdade social, destacando-se também como o segmento que mais gera impactos negativos no meio ambiente — fruto do consumo imoderado e da relação de desprezo pela natureza.

Ademais, embora seja um dos grupos com amplo acesso ao ensino superior, ela atua como uma das maiores promotoras de intolerância e discriminação. Ao vilipendiar o outro com base em classe social, raça ou origem, esse segmento reproduz estereótipos conservadores que destoam profundamente do conceito de humanidade.

Por ocupar diferentes espaços e posições na sociedade, tanto no setor privado quanto no público, essa categoria social passa a ser também uma das principais mediadoras da corrupção no país, fazendo a ponte entre a elite financeira e o sistema público vigente. Não satisfeitos, membros dessa categoria comumente recorrem a espaços religiosos, em tom de sacrifício, para clamar pelo nome santo que interceda, a fim de que a propina venha com abundância. Por outro lado, muitas vezes indivíduos da classe baixa, espelhando-se nessa conduta, adotam a mesma prática nociva — embora seu alcance seja reduzido pelo menor poder de barganha. Isso ocorre até que eles alcancem alguma ascensão socioeconômica e passem a replicar essas condutas de forma bem avassaladora.

Também figuram como uma das características tóxicas da classe média as críticas aos programas de transferência de renda e às políticas de cotas, sendo esse o segmento social de maior resistência às ações afirmativas no país. Paradoxalmente, esse grupo crítico é o que bem usufrui de privilégios estatais (seja no executivo, no legislativo ou no judiciário), incorrendo, por vezes, na apropriação indevida das coisas públicas.

A classe média também reage com forte oposição quando famílias ou indivíduos das classes baixas ascendem socialmente por meio de benefícios sociais ou políticas públicas. Esse comportamento decorre da percepção de que a superação da miséria altera tanto as dinâmicas históricas de exploração quanto as estruturas de poder, o que resulta em tentativas de conter a ascensão social das classes populares.

Não bastasse isso, quando as diferentes categorias sociais se unem em prol de interesses mais universais, diluem-se num contingente humano que passa a agir, sentir e pensar contra os próprios interesses essenciais, perdendo o poder de reação. E, como categorias que vivem em constantes conflitos, passam a ser facilmente doutrinadas, permanecendo passivas na dependência do poder instituído e incapazes de corresponder aos valores mais relevantes da sociedade. Por estarem desprovidas de uma axiologia pujante, essas categorias apresentam um alto grau de passividade que as impede de transformar a ordem estabelecida num plausível progresso social.

Como diz Renato Bittencourt, essa massa humana é socialmente desmobilizada e, quando manipulada pelos poderes dominantes, torna-se fragilizada emocional e coletivamente, sendo utilizada como instrumento de manobra. Isso porque ela atua, acima de tudo, por meio de um sentimento confuso, devido à incapacidade de expandir a sua potência moral, catalisadora das virtudes humanas.

Assim, sem essa potência moral — vazia e manipulada —, a sociedade passa a fazer escolhas perturbadas mal intencionadas. Consequentemente, elege seus pares como representantes políticos, os quais carregam consigo o mesmo DNA moral. Logo, como esses representantes (governantes, legisladores, dentre outros) saem da própria sociedade e partilham da mesma cultura e dos mesmos valores, tendem a repetir as mesmas incorreções dos seus eleitores.

É assim mesmo: se uma sociedade tolera pequenos atos ilícitos no cotidiano, a tendência é que seus líderes reproduzam esse comportamento em maior escala, confirmando o que disse Barack Obama: “Os políticos são reflexos de nós; se uma sociedade é saudável, a política também será.”

No contexto nacional, essa máxima se manifesta claramente na nossa realidade, onde há grupos sociais que costumam eleger representantes que se dizem democratas, mas exaltam a ditadura; dizem-se solidários, mas são egoístas; pregam a diversidade, mas são excludentes; defendem a igualdade, mas são racistas e misóginos; afirmam-se tementes a Deus, mas praticam a corrupção; intitulam-se pacíficos, mas promovem a violência; proclamam-se justos, mas são desonestos; julgam-se livres, mas violam a liberdade.

Além disso, depois de eleitos, antes mesmo que dois raios caiam em sequência, negam seus eleitores tantas vezes, reafirmando ter sido eleitos pela vontade do povo quando, na verdade, compraram cada voto por mísero dinheiro — sujo. Portanto, sem distinção de classes, a sociedade brasileira negocia seu voto e depois geme com o peso da cruz, mas continua dando poderes e lucros àqueles que, como grandes ladrões, passam a roubar até os poucos direitos daqueles que menos têm.

Atualmente, a sociedade vivencia um período de profundas transformações morais e estruturais. Diante disso, percebe-se que os enfrentamentos cotidianos — decorrentes principalmente da incapacidade coletiva de lidar com a especificidade alheia — impedem o indivíduo de enxergar o outro em sua plenitude, afastando-o cada vez mais de sua condição humana. Essa postura tem se intensificado de forma exacerbada, acentuando a degradação do compromisso social.

Diante desse cenário, torna-se imperativo refletir sobre o pretérito para notar como os esforços, antes canalizados para fins coletivos e satisfatórios, foram subjugados por desejos imoderados, particulares e imediatos. Essa mudança priva a sociedade da construção de um amanhã sólido, aprisionando-a em uma rotina de constante urgência para viver apenas o presente.

Portanto, equilibrar o impulso do momento e projetar o futuro é um passo fundamental para que o corpo social brasileiro possa se reconstruir. Além disso, urge romper com a lógica da “destruição mútua assegurada” — conceito que ilustra como as relações sociais caminham para a própria ruína —, em que, contraditoriamente, a sociedade atual sustenta um ciclo de autoconflito na tentativa de evitar a própria extinção.

* Filósofo, consultor ambiental e escritor.  Autor dos livros: Sonhador do Absoluto, Recado aos Humanos, Cem Contos Miúdos e À Sombra do Caimbé; membro editorial da revista Biologia Geral e Experimental. 




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