Sebastião do Nascimento
A resistência oculta do brasileiro ao meio ambiente
Artigo analisa como heranças históricas, descaso urbano, garimpo e avanço da monocultura reforçam a degradação ambiental em Roraima
Imagem ilustrativa representa os impactos da degradação ambiental em Roraima, com destaque para o avanço do desmatamento, garimpo, queimadas, lixo e pressão sobre o lavrado.Os problemas ambientais no Brasil remontam ao século XVI, quando os portugueses iniciaram, por questões econômicas e domínio territorial, a extração em massa do pau-brasil (Paubrasilia echinata), seguida pela implantação das grandes lavouras de cana-de-açúcar e, mais tarde, pela monocultura do café.
Obcecados pelas potencialidades da nova terra, os colonizadores exploraram os recursos naturais sem controle, marcando a história nacional com a violência contra os povos nativos e a degradação ambiental. Esse processo consolidou no país uma elite voltada para o latifúndio, cujos interesses econômicos sempre superaram o respeito à natureza.
Como herança desse período, os colonizadores deixaram não apenas a língua falada no Brasil, mas também uma forte tendência à exploração predatória do meio ambiente, atitude que ficou como legado ao povo brasileiro. Isso ocorre não só devido ao interesse econômico imediato, mas torna-se bastante visível diante da negligência ambiental no cotidiano das pessoas, que vai desde a rejeição a certas normas de proteção da natureza até a efetiva falta de cuidado com meio natural.
Isso implica dizer que, embora utilize determinado ambiente ou recurso natural, o brasileiro — via de regra, preso a essa herança colonizadora — apresenta resistência a tudo que envolve ao meio ambiente, a sustentabilidade, a preservação e a conservação.
Além disso, ele foge da responsabilidade de cuidar com retidão do lugar ou do entorno ambiental onde está inserido, seja no espaço privado ou público, urbano ou rural. Esse cenário manifesta, fundamentalmente, um sentimento de rejeição oculta ao meio ambiente e a ideia de que apenas ao serviço público cabe tal cuidado, embora o Estado muitas vezes também falhe nessa obrigação.
Pegando Roraima como exemplo, podemos buscar diversas atitudes de desprezo ambiental em várias situações do nosso cotidiano. Atitudes que vão desde o discurso ecológico falacioso até pequenas e grandes práticas nocivas, como pode ser constatado nos municípios da região. Enquanto Boa Vista atua com algumas exceções, os demais municípios — além da falta de limpeza e da desorganização urbana — carecem de políticas públicas no sentido de melhorar a qualidade ambiental.
A grande maioria desses centros urbanos não contempla sequer áreas verdes em condições ideais, tampouco serviços adequados de coleta de lixo ou aterro sanitário. No máximo, existe um lixão a céu aberto e sem nenhuma infraestrutura, contrariando o que preconiza a Política Nacional de Resíduos Sólidos. Com isso, além do despejo inadequado na beira das estradas, esses lixões espalham resíduos, permitem que o chorume contamine o lençol freático, liberam gases poluentes e atraem animais e vetores nocivos à saúde pública.
Em Boa Vista, o cenário não é diferente do de outras capitais brasileiras que carecem de infraestrutura básica satisfatória. Isso compromete de diversas maneiras a qualidade do meio ambiente, mostrando que tanto os gestores públicos quanto a sociedade perpetuam o modelo histórico de negação ambiental trazido lá atrás pelos colonizadores. O Parque Anauá é um bom exemplo desse descaso tanto por parte do poder público quanto da população, que contribui com a inercia e seus passivos ambientais.
O espaço, que deveria oferecer uma harmonia paisagística com destaque para áreas verdes, tornou-se um local estéril e insalubre. Até o tradicional lago dos americanos sofreu sérias alterações com um aterramento injustificável, causando impactos ambientais e visuais irreversíveis.
Enquanto isso, os frequentadores convivem passivamente com a sujeira e a desarmonia do local. Não se trata, portanto, de justificar os problemas atuais em função das reformas intermináveis, pois quem vive em Boa Vista conhece muito bem o histórico de descaso com aquele espaço público ao longo de sua existência.
O Parque do Rio Branco é outro exemplo de falta de cuidado ambiental. O espaço encontra-se hoje em condições precárias de manutenção e necessitando de plena arborização. Boa parte da sua extensão era, outrora, área verde pertencente à mata ciliar do rio Branco, que foi totalmente retirada para dar lugar uma “selva” de pedra.
Portanto, o melhor a fazer seria recompor — de forma planejada e seletiva — a vegetação suprimida, criando um suporte ambiental que melhoraria tanto a estética quanto as a qualidade do ambiente daquele espaço urbano.
No que se refere ao lavrado de Roraima, um ecossistema de áreas abertas situado na porção norte e nordeste do estado, este ambiente, apesar de ser considerado o único ecossistema genuinamente roraimense, agora mais do que nunca vem sendo tratado com profunda indiferença e violência ambiental.
Por não ser um ambiente florestal — como as matas do sul do Estado —, ele é visto pelos especuladores de terra da região como um ecossistema pobre e sem nenhuma importância ecológica. No entanto, a região apresenta uma rica heterogeneidade ambiental interligada por uma rede de interações ecológicas capaz de influenciar a dinâmica do clima regional, além de entregar à população humana outros importantes serviços ecossistêmicos.
Como elementos naturais dessa paisagem, além da vegetação característica, o lavrado abriga uma vasta diversidade de fauna, com centenas de espécies de invertebrados e vertebrados conhecidas pela ciência. Há várias formas restritas a essas áreas abertas (com algumas indicações endêmicas), o que torna esse ecossistema ainda mais relevante do ponto de vista ecológico.
Além disso, o lavrado apresenta uma rica fonte de recursos naturais, sobretudo plantas medicinais, frutos silvestres e outras fontes de alimentos de grande importância sociocultural, como os peixes, elementos intrínsecos da base alimentar do povo do lavrado.
Todas essas riquezas naturais, ocultas aos olhos dos degradadores da natureza, lamentavelmente vêm sendo destruídas pelas ações da monocultura de grãos, que, por necessitar de grande extensão de terra para produzir, a cada ano amplia o seu raio de destruição, afetando o equilíbrio da cadeia ecológica e causando a perda de muitos componentes da biodiversidade.
Aqui, é preciso lembrar que, para a produção da monocultura, é inevitável que toda a cobertura vegetal seja suprimida da terra, o que desencadeia um doloroso processo de degradação e a exaustão do solo, o qual necessita cada vez mais de produtos químicos (fertilizantes e agrotóxicos) para suprir a esterilidade do solo e o controle das pragas e das plantas daninhas.
Outra prática danosa que avança contra o meio ambiente vem das atividades do garimpo ilegal, que se expandem por várias regiões de Roraima e afetam de forma avassaladora os territórios indígenas (como Yanomami e Raposa Serra do Sol) e algumas áreas de conservação.
Essas atividades já causaram graves impactos ambientais ao longo dos últimos tempos, sobretudo a partir de 2019, tendo levado, inclusive, ao limite da morte ecológica importantes mananciais da região (quando a água perde a capacidade de sustentar peixes, plantas e outros organismos), por conta da supressão da vegetação, contaminação da água por mercúrio ou do acúmulo de terra no fundo dos rios. Isso não afeta somente a biodiversidade, mas também a população humana, que depende de um ecossistema sadio para ter qualidade de vida.
Assim, diante desse cenário de agressão ao meio ambiente, fica evidente a resistência oculta do brasileiro em relação à natureza, atitude que se manifesta pelo modo insensível e pela forma hostil de tratá-la. O pior de tudo é que essas manifestações encontram cada vez mais eco na sociedade brasileira e passam de geração para geração. Trata-se, portanto, de uma população que, ao se referir ao meio natural, busca excluir-se dele, esquecendo-se de que é parte integrante desse meio.
A consequência disso são os agravamentos dos eventos dados como respostas ao homem pela natureza. Logo, é fundamental entender que, quando um ser humano faz mal à natureza, faz mal a si próprio e a toda a humanidade. E, ao mesmo tempo em que coloca sua própria espécie em risco, cava a própria sepultura.
Consultor ambiental, filósofo e escritor; ex-pesquisador do Museu Integrado de Roraima (MIRR); ex-colaborador do Núcleo de Pesquisa do INPA em RR; coautor do livro “Vertebrados Terrestres de Roraima”; membro editorial da revista “Biologia Geral e Experimental”.




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