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Boa Vista,27/02/2026

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Sebastião do Nascimento

Lago dos Americanos e a contínua desconstrução do Parque Anauá

O esvaziamento simbólico e estrutural de um dos principais espaços públicos de Roraima revela desafios ambientais, urbanos e políticos.

Lago dos Americanos, no Parque Anauá, enfrenta sinais de degradação e preocupa frequentadores.
Lago dos Americanos e a contínua desconstrução do Parque Anauá

Por volta de 1938, quando o então intendente de Boa Vista, Adolfo Brasil, resolveu caçar com os amigos Orlando Mota e Dr. Sandoval Paiva, passaram por um lago que, na época, era distante da cidade — a qual se estendia até onde hoje funciona a agência do Bradesco, na avenida Jaime Brasil. Boa Vista contava com cerca de 1.500 habitantes. O Dr. Sandoval, achando o lugar muito bonito, desejou requerê-lo. Contudo, já existia outro dono, um Sr. Campos, razão pela qual o local era chamado de “Lago do Campos”. 

Após a criação do Território Federal do Rio Branco em 1943, chegou a essas bandas um cidadão inglês de sobrenome Gorinski, que residia numa fazenda na região do Rupununi, Guiana Inglesa (hoje República Cooperativa da Guiana), e comprou do Sr. Campos a área do lago — na ocasião, o Sr. Campos já era tesoureiro do então Território. Anos mais tarde, mais precisamente em 1947, chegou um casal procedente dos EUA, conhecido como Mister Black e sua esposa, Miss Beverly. Por algum interesse, o casal estadunidense comprou a área do lago pertencente ao Sr. Gorinski.

Naquela época, segundo relatos de antigos moradores de Boa Vista, era comum aparecerem fenômenos estranhos em forma de luzes em volta do lago durante a noite. Isso motivou o aparecimento do povo curioso por aquelas bandas, alegando que as luzes eram de discos voadores. Mister Black percebendo o movimento no local, resolveu colocar uma espécie de restaurante no mesmo lugar onde até recentemente funcionava o Bambu Lago. O “restaurante”, há cerca de 100 m de distância do lago, funcionava em instalações precárias, não havendo sequer instalações sanitárias, tampouco iluminação pública. A energia era gerada a partir de um pequeno gerador movido a querosene. Enquanto isso, o acesso por entre o lavrado era um tanto difícil, principalmente na época de chuva. Os transportes utilizados eram as famosas lambretas e os Jeeps. 

Contudo, o restaurante do casal estadunidense foi um sucesso e ficou famoso entre os boa-vistenses o “potatão” (corruptela de potatoes, batatas no plural em inglês) ou “batatas fritas” de Miss Beverly. Logo, o lugar passou a ser chamado de Lago dos Americanos, transformando-se em área de lazer e ponto de encontro de jovens, casais e famílias. Um recanto social e romântico, onde muitas das pessoas que hoje são maridos e esposas começaram a namorar. 

O pôr do sol e o luar também eram bastante apreciados por todos. Além disso, com frequência aconteciam eventos sociais (jantares, comemorações, etc), sendo o local de desfile predileto das jovens de Boa Vista. Toda essa fama disseminou-se rapidamente, fazendo o Lago dos Americanos ficar conhecido também na Guiana e na Venezuela. Visitantes que chegavam vindos principalmente da Venezuela, ficavam acampados em barracas de camping espalhadas pela orla gramada do lago. Este também era o local predileto das famílias boa-vistenses para passeios e piqueniques nos finais de semana, além do refrescante banho nas águas translúcidas do lago.

Em função desse movimento, sentindo a necessidade de legalizar a área adquirida, Mister Black encaminhou pedido neste sentido às autoridades competentes. O pedido foi prontamente negado, possivelmente por ele ser estrangeiro e viver em situação irregular no país. Mister Black, não tendo outra alternativa, resolveu abandonar o local e, junto com sua esposa, Miss Beverly, decidiu ir para Manaus. 

A partir dos primeiros anos da década de 1970, com a expansão da cidade de Boa Vista sobre o lavrado, o governador da época, Hélio da Costa Campos, resolveu ceder uma faixa de área, incluindo a região do Lago dos Americano, para a Infraero. Na ocasião, uma série de protestos da sociedade local levou as autoridades a recuar, deixando a área do lago fora da doação.

Assim, como forma de ocupar as instalações remanescentes próximas ao lago, pelo menos três famílias boa-vistenses, em períodos distintos, residiram no local e, finalmente, o 6° Batalhão de Engenharia e Construção (6° BEC) utilizou a área do lago como um clube de recreação por vários anos. Nesse período, muitos populares já utilizavam a área para a prática de diversas atividades esportivas, quando o então governador Fernando Ramos Pereira resolveu construir uma quadra de tênis e uma pista para a prática de aeromodelismo — este último, esporte praticado pelo próprio governador. 

Nesse meio-tempo, como o lago oferecia boas condições para algumas modalidades de esporte aquático. Pessoas de maior poder aquisitivo, praticavam esqui (puxado por pequenas “voadeiras”) e prancha à vela. E, para melhor atender os banhistas e os praticantes de natação, construíram uma barraca do tipo “maloquinha” e um trampolim para saltos no ponto central do lago.

Já considerado como uma espécie de “clube campestre” devido ao movimento de pessoas que iam praticar lazer e esportes, o Lago dos Americanos, começou a ser visto não só pela sociedade, mas também pelo poder público, como área de utilidade pública. No entanto, no final da década de 1970, os boa-vistenses se surpreenderam novamente quando as autoridades resolveram drenar o lago. A alegação era de que, no período das chuvas, o lago se estendia por uma ampla área de lavrado, havendo a necessidade de diminuir o volume de água para permitir as construções de moradias e ruas adjacentes. A drenagem do lago veio como um fator negativo, contribuindo para reduzir as visitas da população ao local, numa época em que a natureza era mais exuberante e até mesmo pescarias artesanais eram feitas ali.

A relação do povo boa-vistense com o Lago dos Americanos levou, em 1980, o então governador Ottomar de Souza Pinto a criar o Parque Anauá, ocupando uma área de aproximadamente 106 hectares. O nome Anauá é uma referência ao importante afluente do rio Branco, na região sul do estado. A construção do parque, iniciada no mesmo ano de criação, foi concluída entre 1982–1983, período em que o Horto Municipal foi estabelecido em seu interior. Quanto ao lago, o espaço, sofreu diversas intervenções ao longo dos anos, como, por exemplo, o aprofundamento do leito e a redução de sua área circular, o que comprometeu toda sua estrutura natural.

Concluído o parque, o engenheiro agrônomo e então responsável pelo Horto Municipal, Dorval de Magalhães, assumiu a arborização, seguindo o que previa o projeto inicial: ornar o espaço com vegetação frutífera e outras espécies nativas da região, além de áreas de gramado. O propósito era reduzir as ilhas de calor e proporcionar uma beleza cênica, inspirado num conceito de qualidade de vida urbana. Contudo, após a inauguração e a saída de Ottomar, o espaço passou um curto período em estado de abandono, situação que perdurou até o final de 1983, quando o novo governador, Arídio Martins de Magalhães, atendendo ao apelo da população, restabeleceu melhorias para o funcionamento parcial do parque. 

Apesar disso, na época, o parque contava com áreas verdes e uma infraestrutura de uso múltiplo de apoio ao lazer, esporte e cultura. Esta última compunha-se de um museu integrado, um anfiteatro e uma galeria de arte, uma escola de música e espaços cobertos para eventos. No esporte, além do campo de aeromodelismo e da quadra de tênis, o parque contava com pistas de cooper, quadras poliesportivas e campos de futebol. Para o lazer, os usuários contavam com áreas arborizadas para recreações, camping, churrasqueiras, bares e lanchonetes, espaços lúdicos para crianças, um pequeno mirante na orla do lago e um píer avançando sobre o corpo d'água. Todo esse conjunto era servido por banheiros públicos, posto de segurança e área administrativa.

Embora concebido com infraestrutura para ser um dos melhores espaços urbanos da região norte, o Parque Anauá nunca funcionou de forma integral. Ao longo das décadas, o local enfrentou ciclos de deterioração e reformas contínuas, evidenciando que o problema central não é apenas a necessidade de obras, mas a falta de manutenção. Exemplo disso é o complexo poliesportivo construído entre 2016 a 2023 que, após consumir 19,6 milhões de reais dos cofres públicos, encontra-se hoje deteriorado, tendo inclusive seu “marco” simbólico vindo abaixo devido à má construção e absoluta falta de cuidados. 

Nesse contexto, as edificações originais do parque — que apresentavam uma arquitetura rústica em celebração da paisagem do lavrado — foram, pouco a pouco, modificadas ou demolidas, como no caso do museu e da escola de música. Além disso, áreas foram cedidas para atividades alheias ao projeto base, e novas construções foram sendo erguidas sem observar o padrão arquitetônico do parque. 

Grande parte da vegetação plantada por Dorval de Magalhães foi retirada e substituída por cimento e asfalto. A falta dessa cobertura vegetal implica a má qualidade do ambiente, além de tornar desconfortável a prática de recreação e lazer dos frequentadores. Os serviços de bares e lanchonetes também deixaram de existir, assim como a maioria dos banheiros públicos — a arborização, que era bem distribuída por todo o parque, hoje está restrita à área do Horto Municipal e uma pequena área adjacente ao anfiteatro. 

Em vez de plantas, o que se vê hoje no parque é uma “selva” de postes – de iluminação – distribuídos desordenadamente por todo o espaço, causando uma intensa poluição visual. Completamente descaracterizado de sua proposta inicial, o Parque Anauá, como mencionado anteriormente, passa por reformas intermináveis, evidenciando a falta de finalidade do que seja um parque urbano tradicional. Diante dessas mudanças desarmônicas, tempos atrás, foi construído um kartódromo e uma pista de motocross e, em meados do ano passado, uma “pista” denominada de “arrancada” foi construída. Esta, após sua inauguração, foi embargada pela Companhia de Policiamento Ambiental (CIPA), a pedido do Ministério Público de Roraima (ver Folha de Boa Vista, em 17/12/2025). Essas pistas, sobretudo de motocross e de “arrancada”, geram problemas ambientais, como poluição sonora, fumaça e micropartículas suspensas no ar (pela queima de combustíveis), além da poeira provocada pelo motocross. Isso afeta o propósito de lazer e a qualidade ambiental que o parque deve oferecer aos seus frequentadores, que é justamente a maior razão pela qual as pessoas visitam esse tipo de logradouro.

Assim, o espaço urbano, que deveria ser harmonizado com áreas verdes, mobiliário planejado (bancos) e locais para atividades ao ar livre (como caminhadas, piqueniques, etc.), tornou-se um local estéril e insalubre, com edificações grotescas, distantes da proposta original. Além disso, até as aves com dependência do meio aquático, que antes eram abundantes no Lago dos Americanos, estão cada vez mais escassas.

Para os boa-vistenses, sobretudo aqueles que nasceram e se criaram no bairro de São Francisco, assim como eu, o Lago dos Americanos era como uma extensão do quintal. Quando a velha CAER faltava água, ainda mais do que hoje, tínhamos no lago a garantia do banho do final da tarde. Ademais, guardo também na minha memória afetiva as últimas ocupações daquele espaço, passando pelas etapas de implantação do parque e suas inúmeras transformações.

Hoje, com a nova reforma do Parque Anauá, é crucial cuidar dos componentes de infraestrutura que serão instalados. Tão importante quanto isso é a restauração da arborização, inclusive envolvendo — de forma interativa — a comunidade em geral e as escolas no plantio de árvores. Por outro lado, a manutenção a cargo do poder público deve ser adequada e permanente, superando as ações oscilantes vistas atualmente. Para isso, parcerias com a iniciativa privada podem ser adotadas com resultados salutares, como vem sendo feito em outras regiões do país. Dessa forma, teremos um Parque Anauá inteiramente funcional e disponível para toda a população roraimense.

 *Consultor ambiental, filósofo e escritor. Membro editorial da revista “Biologia Geral e Experimental”. Autor dos livros “Cem contos miúdos” e “À sombra do caimbé” (no prelo).




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