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Boa Vista,27/02/2026

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Sebastião do Nascimento

Eterno retorno das mazelas que minam a humanidade

Crises repetidas revelam falhas profundas da civilização

Crédito: Arte: IA Generativa / Gemini (Google), sob os tópicos de Sebastião Pereira do Nascimento.
Eterno retorno das mazelas que minam a humanidade Mural das Mazelas Humanas: Uma representação das crises que corroem a "substância racional" do ser humano, desde a desigualdade extrema e a violência estrutural até a alienação digital e os radicalismos políticos.

A partir de uma teia conceitual, ao longo da existência da humanidade muitos pensadores trataram de caracterizar o que é a pessoa humana. Entre várias argumentações a respeito desse entendimento, uma que despertou atenção foi a definição do filósofo romano Boécio, o qual entende o ser humano como uma “substância racional de natureza individual, portadora de uma existência ímpar” que, a priori, só pelo fato de ser humano, o sujeito já é digno de uma vida saudável, não apenas física, mas principalmente moral e espiritual. 

Nesse contexto, embora Boécio aplique a ideia de que a vida saudável é um valor intrínseco à condição humana, na prática, não se pode negar as contradições de uma vida em sociedade marcada por conflitos. Como diz Delmo Mattos, a todo instante, somos conduzidos a crer que a “coisa bruta” sempre fez parte da condição humana. Segundo ele, a pessoa possui, ao lado de suas melhores essências, a essência do mal, a qual pode ser estimulada na medida em que ela resiste em usar a sua racionalidade, abrindo espaço para aprimorar o seu lado cruel e colocar em prática seus desejos mais avassaladores, que sempre resultam em atos de barbárie.

Com base nessas premissas, percebe-se que esforços anteriormente salutares, voltam-se agora para as ações nocivas, multiplicando as barbáries humanas, potencializadas pela naturalização da violência sistêmica como estratégia de sobrevivência. Conclui-se, portanto, que a “boa vida” apregoada por Aristóteles não nos cabe mais. Hoje vivemos numa época de desumanização generalizada que se reflete, inevitavelmente, na ruína da nossa espécie, quando o outro é cada vez mais estranho para nós e está mais distante de nossa capacidade de reconhecê-lo como ser humano. Assim, sob o peso dessas agruras, destacamos algumas mazelas que contribuem para o profundo fracasso da humanidade.

Segregação social: Refere-se à separação ou exclusão de grupos dentro de uma sociedade. Na prática, essa fragmentação social torna difícil o alcance de um equilíbrio sócio-político sólido. Não bastasse isso, quando as diferentes categorias se unem em prol de interesses mais universais, diluem-se numa massa humana amorfa e passam a agir, sentir e pensar contra os próprios interesses essenciais, perdendo todo o poder de reação, sendo facilmente doutrináveis. Essa massa, muitas vezes acometida de uma profunda alienação  composta pela tríade: debilidade, imbecilidade e idiotia, permanece num estado de dependência do poder instituído, sendo socialmente desmobilizada e desprovida de uma axiologia capaz de transformar a ordem estabelecida num plausível progresso social. Como diz Renato Bittencourt, essa massa social, quando é manipulada pelas classes dominantes, torna-se fragilizada emocionalmente e coletivamente utilizada como massa de manobra. Isso porque ela atua por meio de um sentimento confuso, devido a incapacidade de expandir sua potência transformadora das reais condições humanas. Portanto, ao contrário do princípio natural de igualdade do homem, todo processo de segregação sempre caminha na direção de levar a humanidade em colapso.

Concentração de renda: A concentração de renda é um fenômeno onde uma pequena parcela da população detém a maior parte da riqueza produzida, gerando impactos profundos na humanidade. Estudos atuais indicam que apenas 1% da população mundial acumula 45% - 50% da riqueza global. Essa riqueza concentrada nas mãos de poucos, limita o crescimento econômico sustentável e impede que o dinheiro circule na economia real através do consumo de massa. E mais assustador, é que o poder econômico concentrado sempre gera uma influência política desproporcional, permitindo que a elite econômica molde as políticas públicas a seu favor e extrai de forma voraz o valor do trabalho realizado pela massa trabalhadora. Fator que resulta em acúmulo de riqueza para a elite, além de fomentar a exclusão social e perpetuar o ciclo da pobreza global por longas gerações.

Violência estrutural: É inegável que vivemos dias difíceis, nos quais a agressividade, em sua forma mais intensa, envolve grande parte da população mundial. Embora pareça um fenômeno recente, ela sempre esteve presente no seio da sociedade. Hoje, contudo, a escassez de valores humanos tem provocado uma escalada desse fenômeno, impulsionada por inúmeros fatores. Diante desse cenário, há pessoas que tornam absoluta a sua vontade, passando a ser intolerantes e brutais. No Brasil, p.ex., vários estudos apontam que a criminalidade brasileira se agravou muito a partir de 2019 com a política de flexibilização de acesso a arma de fogo pela população.

Os estudos revelam que o aumento da presença de arma nos lares potencializou a letalidade em casos de violência doméstica, inclusive com prevalência para feminicídios. Em lugares, com maior circulação de armas de fogo, os estudos mostram um aumento da letalidade em conflitos interpessoais, sobretudo por motivos fúteis: brigas de trânsito, desentendimentos, etc. Não raras vezes vitimando pessoas engajadas na resolução dos conflitos. Os relatórios mostram ainda que armas compradas legalmente acabam sendo desviadas para o crime organizado, implicando ainda mais no aumento da violência, mesmo contra o Estado. No contexto global, a violência está também estruturalmente presente em todas as estratificações sociais, afetando majoritariamente as populações mais vulneráveis.

Corrupção sistêmica: De todas as mazelas sofridas pela humanidade, a corrupção é uma das mais potentes catalisadoras do flagelo humano. Como algo corriqueiro na atualidade, a corrupção está à sombra dos palácios, dos casebres, dos casarões, das favelas, das repartições, dos templos, das assembleias, das igrejas, dos bordéis, etc. Além disso, a pessoa corrupta, por não ter nenhuma resistência moral, entra em turbulência e deixa de fazer as coisas certas, não raro para satisfação própria. O pior de tudo: mesmo diante do custo doloroso a todos, a pessoa corrupta nunca se envergonha de suas ações ilícitas. E, na ânsia de se apropriar do alheio e insatisfeita com o estado legal das coisas, a pessoa, com sua moral existencialmente corrompida, aspira à “obrigação” de executar — se outros motivos não houver — a corrupção. Logo, atuando como um “câncer”, a corrupção corrói a estrutura moral de qualquer corpo social e depaupera a humanidade.

Fundamentalismo religioso ou político: As intolerâncias que presenciamos na atualidade enfatizam a certeza da obediência religiosa excessiva. Há religiões que militam a favor de seus dogmas em face de uma verdade discutível, mas que não tolera a possibilidade de diálogo com outras correntes (religiosas ou não religiosas), tirando-as do campo do debate ou até mesmo partindo para confrontos. No caso do fundamentalismo político, temos no fascismo e no neonazismo os exemplos mais hostis no que se refere aos conflitos.

No decorrer da história da humanidade, os proselitismos ganharam corpo e alma espalhando intolerância, ódio, discriminação e violência nos níveis mais altos de suas vertentes. Em escala geral, o fundamentalismo (político e religioso) vem se apresentando de modo a não tolerar as diferenças humanas, tentando fazer prevalecer suas convicções, ao mesmo tempo em que se torna contraditório quando não acolhe a convicção do outro. A base disso é a falta de habilidade humana, que ultrapassa a sensatez e entra no campo da insanidade. Via de regra, os fundamentalistas não visam apenas idiotizar as pessoas, mas convencê-las de que suas provocações seguem as normais sociais instituídas pela sociedade — e é aí que reside o perigo para a humanidade.

Enfraquecimento das organizações de ajuda humanitária:  Criadas por tratados multilaterais entre países soberanos, visando fomentar apoio emergencial, proteger direitos humanos e promover a cooperação internacional para mediar/solucionar situações de conflitos e crises naturais. Contudo, diversas dessas entidades sofrem, atualmente, com a redução de fundos e de poder político, além de insolvência financeira dessas organizações — decorrente da falta de compromisso dos países signatários. Isso impacta diretamente sua autonomia e capacidade operacional, diminuindo seu poder de intervenção e deixando nações pobres e parte significativa da humanidade desassistida de seus direitos fundamentais.

Facção política de extrema-direita: Autoritários e ultraconservadores, os sequazes da extrema-direita, assim como outros extremistas (independentemente do espectro político), se alimentam de uma verdadeira abominação: uma abominação política, porque são fascistas; uma abominação ética, porque são violentos; uma abominação cognitiva, porque são ignorantes. Na prática, os elementos de extrema-direita — hoje em crescente escala global — se apegam a uma ideologia política que utiliza medidas extremas simulando resolver os problemas sociais, quando na verdade querem apenas resolver seus problemas existenciais. Para tanto, à luz de um comportamento imoral, nutrem o populismo autoritário, adotam regras unilaterais em detrimento do multilateralismo e instrumentalizam as instituições democráticas a seu favor. 

Ainda como parte dessa agenda disruptiva, passam a promover narrativas perturbadoras dos valores morais da sociedade, verberar ódio e repulsa às diferenças humanas, praticar injúrias raciais e xenofobia, negar a ciência e a cultura, ameaçar os direitos ambientais, usurpar ou dilapidar o patrimônio público, celebrar a ditadura e exaltar os torturadores, além de fingir “amor” pela pátria, pela religião e pela família — no entanto, conspiram contra o país, desprezam a diversidade religiosa e ultrajam as mulheres. Obcecados por armas e poder, corrompem as forças militares e forças de segurança pública. E, negando a ideia de que a segurança pública é dever do Estado, passam a armar a população e acenar às facções criminosas. Dessa forma, pela concepção que têm de um mundo distorcido, a extrema-direita potencializa a força destrutiva da humanidade.

Redes sociais: É universalmente aceito que o uso desmedido das ferramentas digitais, associado à busca do prazer a todo custo, pode levar a um declínio social e moral. Esse comportamento pode, inclusive, evoluir para uma disfunção patológica, a qual deve ser encarada modernamente como uma doença. No mundo contemporâneo, a vontade exacerbada de se mostrar ou expor coisas que causem impacto no outro está cada vez mais evidente. Nas redes sociais, essa necessidade sôfrega de criar narrativas falsas, moldadas pelo desejo, torna a vida humana muito mais superficial e vazia. 

Esse frenesi pela impressão “perfeita” e “verdadeira” que muitos acreditam transmitir, mostra o quanto as pessoas ainda têm incapacidade de lidar com a tecnologia digital. Assim, ao tentar sustentar essa imagem idealizada de forma sistemática, as pessoas alimentam desejos latentes que podem levar a graves transtornos da personalidade e provocar na humanidade um estado intenso de sofrimento. A internet e suas plataformas virtuais, apesar de alguns benefícios que trazem para a humanidade, tornam-se também uma “arma” virtual perigosa nas mãos de uma massa humana descontrolada que, eximindo-se de atributos saudáveis, dissemina conspirações, mentiras e futilidades para além do senso comum, levando pessoas existencialmente sofridas a se tornarem protagonistas de um mundo pior. 

Assim, sob o efeito dessas mazelas, segue a humanidade, castigada por si mesma, especialmente quando reafirma incessantemente suas falhas. Diante disso, a ideia de “eterno retorno” — focada na crítica nietzschiana — é um bom exemplo do que a repetição das falhas humanas pode causar à humanidade, cenário no qual qualquer forma de vida saudável é impossível.

*Filósofo, escritor e consultor ambiental. Membro editorial da revista “Biologia Geral e Experimental”. Autor dos livros “Cem contos miúdos” e “À sombra do caimbé” (no prelo).




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